Este Contos Amazônicos (Editora Martin Claret) é o último livro do professor, advogado, político, jornalista e escritor Inglês de Sousa, sob o mesmo princípio literário: descrever a realidade com olhos de cientista. Como pioneiro da literatura naturalista no Brasil, seu objetivo era mais analisar do que sentir. Neste e nos outros quatro robustos romances que escreveu são evidentes as influências de Eça de Queiros e Émile Zola. Na obra aborda temas como a Cabanagem no norte, a guerra do Paraguai, a escravidão, a relação entre brancos e índios, os ventos da República e a fragilização do catolicismo, emoldurados pela paisagem colorida e pelas histórias, lendas e mitos dos ribeirinhos do Pará, na região amazônica. Ailustração de capa foi motivada pelo sétimo conto, cujo protagonista é provavelmente o mais comentado e difundido mito do norte: o boto.
novembro 27, 2012
outubro 26, 2012
PEDZERÉ, LINHAS E CORES
Essa história foi inspirada pela visão de um sanhaço-de-coqueiro que a autora – a escritora carioca Naná Martins - vislumbrou pela janela do seu quarto, um pouco antes de dormir. No dia seguinte, embalada pela brisa e pelo canto dos pássaros, Naná observou uma bela índia que ajeitava os longos cabelos negros. Nasceu assim o mote para uma narrativa fictícia, lançada pela Editora FTD, com toques étnicos nativos e cenário natural. Pedzeré, a protagonista, colhe folhas todas as manhãs, próximo a sua aldeia. Folhas para comer, para banho, para remédio, para comida. Um dia é surpreendida por um jovem indígena com uma linda pintura corporal de origem misteriosa. Os dois se apaixonam. E nada mais será como antes.
Na confecção das ilustrações usei tanto recursos analógicos quanto digitais, combinando monotipias, tintas naturais, papeis reciclados, carimbos e raspagem. As formas estilizadas foram livremente baseadas nas famosas bonecas Karajá, que são pelas mulheres chamadas na língua nativa de ritxòcò e pelos homens de ritxòò. Tais figuras de argila e cinza são a expressão de uma identidade. Têm profundos significados sociais, reproduzindo a ordem sociocultural e familliar dos Karajá, comunicando ludicamente os valores passados de uma geração à outra. Como a etnia de Pedzeré é indefinida, criei padrões gráficos e adornos aleatórios. Apenas a caracterização da cobra é mais realista. Trata-se da jiboia-arco-íris, ou salamanta, uma espécie que pode atingir quase dois metros de comprimento. É típica do cerrado e encanta pelo brilho colorido, graças a sua incrível iridesciência, provocado pela reflexão da luz sobre sua pele.
agosto 03, 2012
O MUNDO PELOS OLHOS DE GAIA
A Editora Gaia preparou a nova edição do seu catálogo de literatura infantil e juvenil para a 22ª Bienal Internacional do Livro de São Paulo. A Hipótese, ou Teoria, de Gaia foi o mote para a criação da capa. Trata-se de uma tese que sustenta funcionar o planeta Terra como um ser vivo. Foi apresentada em 1969 pelo investigador britânico e ambientalista James E. Lovelock e pela bióloga estadunidense Lynn Margulis. O nome Gaia é uma homenagem à deusa grega Gaia, da Terra. Controversa para alguns membros da comunidade científica internacional, a Teoria de Gaia encontra simpatizantes entre grupos ecológicos, místicos e também pesquisadores atentos às interações cíclicas do "meio ambiente", portanto, não-lineares e não deterministas".
julho 18, 2012
COM A NOITE VEM SONO

O mito traz consigo a magia do princípio do mundo. Naquele tempo havia harmonia e o mundo era povoado por forças que buscavam controlar a noite,
o dia, o fogo, os alimentos, os homens e os animais, o tempo e a natureza.
Era tempo que inspirava cuidados com o corpo e com o espírito e de tudo emanava o mistério e a magia capazes de dar sentido à existência. Assim
era. E assim ainda é. São o mistério e magia que alimentam nossas vidas.
E quem conseguir ler a história que este livro traz com os olhos do coração,
irá enxergar muito além das próprias palavras. E se encontrará, de novo, no princípio de tudo. Escreveu assim Daniel Munduruku, no texto de quarta capa deste reconto da escritora e professora Lia Minápoty, da etnia Maraguá. Lia pertence ao clã Çukuyêguá Poe por nascimento e ao clã Aripunãguá por casamento. Nasceu na área indígena Maraguapajy, próximo ao rio Abacaxi,
na aldeia Yãbetue'y.
irá enxergar muito além das próprias palavras. E se encontrará, de novo, no princípio de tudo. Escreveu assim Daniel Munduruku, no texto de quarta capa deste reconto da escritora e professora Lia Minápoty, da etnia Maraguá. Lia pertence ao clã Çukuyêguá Poe por nascimento e ao clã Aripunãguá por casamento. Nasceu na área indígena Maraguapajy, próximo ao rio Abacaxi,
na aldeia Yãbetue'y.
O povo Maraguá, que vive na imensidão amazônica,
conta com algumas centenas de pessoas, que lutam para preservar sua
cultura tradicional.
A narrativa, que ilustrei a convite da Leya, revela
a busca dos Maraguá pela noite restauradora. Sem a escuridão, que aprofunda o
sono, faltava energia
para o trabalho diurno. Lia retoma na obra a fala encantatória, que acontece
nas rodas de conversa ao entardecer, quando todos se reúnem para ouvir histórias mágicas, como numa espécie de portal onde experiências,
realidade e sonho se fundem. Projeto gráfico meu e de Eduardo Okuno.
para o trabalho diurno. Lia retoma na obra a fala encantatória, que acontece
nas rodas de conversa ao entardecer, quando todos se reúnem para ouvir histórias mágicas, como numa espécie de portal onde experiências,
realidade e sonho se fundem. Projeto gráfico meu e de Eduardo Okuno.
julho 12, 2012
UM RECONTO DO POVO LUO
Duany mal ajudava a mãe e a irmã com a moenda do milho e outros afazeres doméstico de sua aldeia. Seu maior desejo – o qual compartilhava com todas as garotas da sua idade – era ter a tatuagem mais bonita de seu povo, para conseguir um bom pretendente para casar. Contudo, Duany encontrará pelo caminho uma criatura misteriosa, que mudará o rumo de sua vida. Recente lançamento da Editora Gaivota, A tatuagem apresenta ao leitor uma bela narrativa tradicional da etnia Luo.
É o segundo livro de temática africana do escritor Rogério Andrade Barbosa que tive a oportunidade de ilustrar e cuidar do projeto gráfico. Agradeço o convite e o investimento na edição caprichada, de capa dura e papel de qualidade, que valorizou a narrativa tradicional dessa etnia que integra o grupo linguístico chamado de nilóticos ocidentais. As ilustrações desse livro receberam o The Merit Award/Hiii Illustration International Competition 2012.
Logo nas primeiras páginas há um mapa, que mostra onde vive ainda hoje o povo Luo. Após sucessivas migrações, esse grupo étnico se estabeleceu no entorno do lago Vitória (ou Nyanza) – situado no Quênia –, e em certas regiões da Tanzânia e Uganda. Os Luo são bem conhecidos como o povo dos lagos, pela alta estatura e pelo trato com o gado. Possuem, como tantos outros povos africanos, uma variada e rica literatura oral. Histórias que são transmitidos pelos mais velhos ao mais novos, de maneira cíclica.
A pesquisa sobre os Luo foi meu alicerce na confecção das ilustrações. As artes corporais costumam estar relacionadas tanto à afirmação de identidade étnica quanto a outras circunstâncias tais como luto, trabalho, festividades, ritos de passagens, entre outras. Tais contextos rurais estimulam penteados, adornos, pinturas corporais, tatuagens e escarificações. Estas últimas, que já foram tão incômodas aos colonizadores, hoje inspiram a cultura urbana contemporânea e globalizada.
maio 18, 2012
NOVO ROMANCE DE PAULO LINS
Alguns anos depois do sucesso Cidade de Deus, o escritor Paulo Lins resgata momentos da formação da cultura brasileira através do samba, do candomblé e da umbanda e do modo de vida nacional no Rio de Janeiro na década de 1920. O autor conta a história de diversos personagens envolvidos na fundação do primeiro bloco de Carnaval, da escola de samba Deixa Falar, a primeira escola de samba do Brasil, fundada no Rio de Janeiro, em 1928. Moradores e frequentadores da zona do baixo meretrício do Rio trazem ao leitor a realidade das ruas naquela época. Prostituição, relacionamentos conturbados, sexo, violência, fé e ritmo. Assim foi o samba fazendo escola e pedindo passagem.

DESDE QUE O SAMBA É SAMBA apresenta a Pequena África que é a região que inclui Estácio, Cidade Nova, Rio Comprido, Zona Portuária e Catumbi. Uma zona onde moravam os negros que vieram da Bahia e trabalhadores do cais do porto do Rio de Janeiro. Um gueto, onde também viviam portugueses imigrantes, espanhóis e árabes.
Na entrevista para o GloboNews, o autor dá seu testemunho sobre a superação da "doença da meia-noite", conforme dizia Egar Allan Poe. E mostra satisfação em lançar agora este novo e cativante romance pela Editora Planeta, cheio de ginga, cuja capa tive o privilégio de criar. O vermelho e o branco, dominantes na ilustração, eram as cores oficiais da Deixa Falar. Como também compõem, junto com o preto, a identidade cromática do Seu Zé Pelintra e do Exu Tranca-rua, entidades da nova religião. O samba e a umbanda nasceram no mesmo terreiro de candomblé.
abril 10, 2012
A MENINA, O CORAÇÃO E A CASA
Altamente Recomendável FNLIJ 2013 - Produção 2012

A Global Editora publicará este delicado livro de María Teresa Andruetto. O lançamento será no dia 18 de abril, logo após o coquetel de abertura do 14° Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, que acontecerá no Rio de Janeiro entre os dias 18 e 29. É comovente a prosa poética dessa autora argentina, nascida em Arroyo Cabral, Córdoba. Neste livro, com tradução da escritora Marina Colasanti, cuidei do projeto gráfico e das ilustrações de capa e miolo. A autora, que já recebeu uma série de menções, distinções e prêmios, acabou de levar o Prêmio Hans Christian Andersen de 2012. O brasileiro Roger Mello ficou entre os cinco ilustradores finalistas. Entre os escritores também foi finalista o saudoso Bartolomeu Campos de Queirós.
abril 04, 2012
O GUARANI

José de Alencar, criador de uma literatura nacionalista e maior romancista do Romantismo brasileiro, ao escrever O Guarani desejou fundar uma literatura brasileira autônoma de Portugal, com sintaxe e vocabulário típicos. A famosa história de amor entre o índio Peri e a moça branca Ceci – temperada com muita ação e traição, lutas e vingança – foi publicada antes como folhetim, em meados de 1857. Depois foi ajustada para virar livro. Ilustrei a capa desta edição para a Editora Martin Claret, na conhecida coleção que reúne obras-primas de grandes autores. No romance destacam-se as atitudes morais, de bravura, lealdade e firmeza moral atribuídas às certas personagens, inclusive indígenas, cujos valores são claramente utópicos e ufanistas. Mas é notável o destaque dado à oposição entre o nativo e o branco, o campo e a cidade, o sertão e o litoral.
janeiro 12, 2012
LITERATURA INDÍGENA EM REVISTA

A Revista Continente é uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). Por Luiz Arrais, superintendente de criação, fui convidado a ilustrar a capa e a respectiva matéria especial da edição #133, que trata da chamada literatura indígena.
A matéria, assinada pela jornalista Isabelle Câmara, destaca o crescente interesse por obras de autores indígenas no cenário editorial brasileiro. Diversos autores são lembrados, tais como Marcos Terena, Eliane Potiguara, Graça Graúna, Olívio Jekupé, Nhenety Kariri-xokó, Tkainã, Vãngri Kaingáng e outros. Há também uma entrevista com o escritor Daniel Munduruku, que expõe sua percepção sobre a literatura indígena e toda a sua diversidade étnico-cultural. Também dei uma palhinha sobre o tema. Quem puder, confira a Continente, uma publicação muito bem cuidada.

Tanto tradicionais quanto contemporâneas, ilustrei a matéria com estas as duas licocós acima, ou bonecas de barro feitas pelas mulheres Karajá. Uma delas lê. Enquanto a outra, digita em seu laptop. A identidade, manifesta nas formas, adereços e pintura corporal, dialoga com a contemporaneidade. Já para capa fiz um tributo ao povo Kambiwá, natural do sertão do Pernambuco (Ibimirim, Inajá, Floresta). Com seu paramento de palha de caroá, e maracás em punho, um índio participa do ritual do praiá. Do diadema, disposto feito uma boca, em vez de penas projetam-se línguas. Cada qual relacionada a uma família linguística indígena. Essa mesma imagem foi premiada no XX Salão Internacional de Desenho para a Imprensa, na categoria "Ilustração Editorial" (Porto Alegre, 2012).
novembro 28, 2011
I - JUCA-PIRAMA
Para a Editora Martin Claret, uma ilustração de capa do livro de bolso que reúne o célebre épico brasileiro e outros poemas do mesmo autor. I - JUCA-PIRAMA é um canto a um guerreiro Tupi, aprisionado pelo povo Timbira, que sacrifica a sua própria honra ao pedir clemência na hora da morte, passando-se por covarde para poder oferecer ajuda ao velho pai, cego e doente. Este, no entanto, envergonha-se da sujeição do filho. Injustiçado, o bravo guerreiro lidera enfim um ataque dos Tupi aos Timbira.
De espírito romântico, com nacionalismo e verve indianista, Gonçalves Dias conferiu, ao lado de José de Alencar, brasilidade à literatura brasileira. Orgulhava-se por ter o sangue das três matrizes. Filho de pai português e mãe cafuza, foi poeta, dramaturgo, filólogo, professor e homem público. Trabalhou como caixeiro. Estudou latim, francês e filosofia. Completou seus estudos em Portugal. Fez Direito na Universidade de Coimbra. Participou do movimento medievista. Foi também jornalista, cronista, crítico literário e autor de folhetins teatrais. Também foi pesquisador e membro da Comissão Científica de Exploração, pela qual viajou por quase todo o norte do Brasil. Sua obra estimulou o sentimento nacionalista ao incorporar assuntos, povos e paisagens brasileiras.
De espírito romântico, com nacionalismo e verve indianista, Gonçalves Dias conferiu, ao lado de José de Alencar, brasilidade à literatura brasileira. Orgulhava-se por ter o sangue das três matrizes. Filho de pai português e mãe cafuza, foi poeta, dramaturgo, filólogo, professor e homem público. Trabalhou como caixeiro. Estudou latim, francês e filosofia. Completou seus estudos em Portugal. Fez Direito na Universidade de Coimbra. Participou do movimento medievista. Foi também jornalista, cronista, crítico literário e autor de folhetins teatrais. Também foi pesquisador e membro da Comissão Científica de Exploração, pela qual viajou por quase todo o norte do Brasil. Sua obra estimulou o sentimento nacionalista ao incorporar assuntos, povos e paisagens brasileiras.
outubro 27, 2011
AVENTURAS DO TUXAUA DAS ONÇAS

Com alegria comemoro o breve lançamento destas narrativas tradicionais do povo Sateré–Mawé (Paulinas Editora), selecionadas e recontadas pelo escritor indígena Tiago Hakiy e especialmente dedicadas aos seus filhos. Nosso primeiro encontro foi em 2009, em Cuiabá, quando participamos da primeira edição da FLIMT - Feira do Livro Indígena de Mato Grosso. Naquela ocasião, com carisma e fluidez, Tiago logo seduziu a platéia ao compartilhar seus poemas vestidos de verde, sangue, seiva, água, palavras de exaltação, beleza, orgulho, deslumbramento e identidade.

AWYATÓ-PÓT, o grande líder das onças, guerreiro reconhecido quando criança pelo painy (pajé) do povo Mawé, é o herói-civilizador protagonista das histórias reunidas pelo autor, ele próprio também um legítimo amazonense de Barreirinha e filho do povo Sateré-Mawé. Além de poeta e contador de histórias tradicionais, Tiago Hakiy é formado em Biblioteconomia pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), e atualmente trabalha como subsecretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente no munícipio de Barreirinha.
A obra, certamente não apenas para o deleite das crianças, conta a bela odisseia desse bravo índio Mawé, as circunstâncias do seu nascimento, a bravura e o espírito de liderança e alguns dos seus enfrentamentos – com a Surucucu e com o temível Juma – e mesmo diante de questões familiares íntimas. Episódios que revelam parte da percepção dos Sateré-Mawé, os filhos do guaraná, no alinhavo entre os planos físico e o metafísico, como também ocorre entre outras tradições autóctones. Ilustrado com técnica mista e sob inspiração gráfica da cerâmica tapajoara, ancestralidade longínqua provável dos Saterê-Mawé.
setembro 22, 2011
ADMIRÁVEL OVO NOVO

O pintinho Pit, personagem principal do escritor Paulo Venturelli neste livro pela Editora Positivo, faz a gente refletir sobre as crianças e os jovens urbanos. Muitos mal conhecem os trejeitos de uma galinha choca ou os cacoetes de um galo. Lá no sítio da minha infância, próximo de Cotia, passávamos temporadas longas e prazerosas. O maior prazer da minha avó, além da cozinha, era o galinheiro. Memória e inspiração afetiva.

As galinhas tinham ali um abrigo noturno, e de dia ciscavam livres, leves e soltas. Lembro de tentar adivinhar como seriam os pintinhos, tão parecidos no início, quando virassem adultos. As galinhas ficavam sempre por perto, e a sua liberdade vigiada me intrigava. Hoje me ocorre que a gente também choca, pia, sacode as penas, cozinha o galo, tem minhocas na cabeça e bota ovo em pé. Por isso misturei esses ingredientes todos ao criar as imagens deste ADMIRÁVEL OVO NOVO. Com uma pitada de humor, afeto, lembrança, risco e poesia. E pautadas por sentimentos e reflexões.

Nas ilustrações misturei recursos analógicos e digitais. Parte das texturas foram feitas com lápis grafite, tinta acrílica, fotografias de paredes descascadas, raspas de serragem, casca de ovos caipiras e outros elementos combinados na composição com um toque climático. Busquei um clima intimista, com recursos mínimos de narração e sugestão, para acompanhar a crise existencial pela qual passa o personagem principal, desde o sentimento de segurança e acolhimento do ovo, passando pelas atribulações da infância e adolescência, até finalmente virar um galo adulto.
julho 15, 2011
FALA COMIGO, PAI!

Tuna faz quinze anos e descobre que Rick, na verdade, é seu padrasto. Decide procurar por seu pai biológico na tentativa de compreender aquilo que o levou a abandonar a família anos atrás. Surfista descompromissado, Biel se deixou levar pelas ondas dos mares, surfando pelo gosto da aventura, até parar na Indonésia. Mal conheceu o filho que cresceu, tão parecido com ele, cabeça solta, o mar no sangue e a prancha nos pés. Pai e filho, um mar de solidão. Saudades de algo que jamais desfrutaram. Tuna viaja para encontrar Biel, sem imaginar o que brotará desse encontro.

Nunca tinha feito qualquer rabisco sobre surfe. Embora tive alguns amigos surfistas e temporadas deliciosas no litoral norte e sul de São Paulo. Quando a Editora Rovelle me convidou para criar as imagens e o projeto gráfico deste livro juvenil escrito pelo prolífico Júlio Emílio Braz, as memórias praianas vieram à tona. De mim esperavam uma abordagem inspirada na paisagem e grafismos étnicos, tradicionais, balineses, indonésios, australianos. Ou na estética ousada do universo do surfe.

Aceitei o desafio, porém, porque o eixo dramático da história me agradou. Notei que as tensões climáticas da trama ofereciam um pretexto diferente para ilustrar as passagens. Depois de tantos trabalhos gravados à fogo, senti um apelo para inverter o raciocínio. Percebi que poderia usar a água, seus humores e nuanças, para acompanhar o ritmo das marés e dos sentimentos oscilantes das personagens. No projeto gráfico, que ficou sob a responsabilidade do nosso estúdio, também buscamos favorecer esse partido. Na capa, para intensificar o efeito resplandecente do sol sobre o mar, utilizamos cold stamping no acabamento. Um produção editorial cuidadosa, que só foi possível graças ao entusiasmo e sinergia de todos.
julho 14, 2011
AKPALÔ GEOGRAFIA

Ilustração para a capa de Akpalô Geografia (Editora do Brasil), sob o mote do frevo pernambucano, que desenvolvi estimulado pelas últimas férias em Olinda. Já colaborei antes com as capas da disciplina de História. A Coleção Akpalô, da qual fazem parte, tem como objetivo estabelecer a distinção entre o saber histórico como campo de pesquisa e o saber histórico escolar, adaptado à vivência dos professores e alunos em sala de aula.
junho 06, 2011
POLÊMICA À PARTE: VIVER, APRENDER

Muito pano para manga deu a paranóia vazia armada em torno da excelente Coleção Viver, Aprender (Ação Educativa/Global Editora). Bizarro exemplo de cibridismo histérico. Da fricção entre a norma culta e o falar popular restou o abismo de incompreensão entre especialistas, curiosos e paraquedistas. No balaio de gato coube de tudo. Tolices sem fim, jornalismo rasteiro e conclusões apressadas. Há anos, eu e o designer parceiro Eduardo Okuno, temos produzido boa parte do material didático dessa coleção, desenvolvendo projetos gráficos. Ilustrei também vários desses volumes. Essas publicações de prestígio são uma referência no segmento. Muito nos espantou, portanto, o evidente despreparo crítico de certas vozes. E a maneira leviana com a qual parte da imprensa conduziu suas reportagens, pouco ou nada investigativas. A resposta organizada está abaixo disponível aos interessados. Consumiu o tempo que outros deveriam ter dedicado antes de tirar conclusões equivocadas.
maio 04, 2011
RAIO DE SOL, RAIO DE LUA
Bologna Children's Book FNLIJ Selection, 2012
Sol e Lua já foram crianças há muito tempo atrás, segundo dizem no Senegal. Ambos costumavam acompanhar seus pais no trabalho nos campos cultivados. A família do Sol ia para o Leste e cultivava o milhete. A família da Lua, ia para o Oeste e cultivava o sorgo. Ao entardecer, acabavam se encontrando no meio do caminho. Assim Celso Cisto começa a recontar esta narrativa etiológica, que será lançada em 2011 pela Editora Prumo, que tive a chance de ilustrar recentemente.

A música africana sempre me encantou. Tenho alguns álbuns do cantor, compositor e percussionista Youssou N'Dour. Que também é embaixador da boa vontade para as Nações Unidas, Unicef e da Organização Mundial do Trabalho. Esse artista admirável vive em Dakar e se mantém fiel às suas origens e identidade, a despeito da sua receptividade musical aos novos gêneros. Embalado pela singular voz de Youssou N'Dour e pelo ritmo da sua banda, a Super Étoile de Dakar, produzi as imagens deste livro.

Além da música, entre as formas de arte mais populares no Senegal estão as pinturas feitas sob o vidro e as pinturas de areia. As útimas foram minha fonte. Normalmente os artistas combinam vários tipos de areia, com diferentes cores e tonalidades, conforme as características dos solos, praias, dunas, leitos de rios, áreas vulcânicas etc. Impedido de adotar a mesma técnica e materiais, optei por misturar areia, pigmentos, recursos digitais e grafismos de etnias tradicionais. Existem, por sinal, diversos grupos étnicos no país. Embora o francês seja o idioma oficial, a língua mais falada é o Wolof (do povo de mesmo nome), que corresponde a quase metade da população. Além dos Fulani, Serer, Jola, Bedick, Mandingo e outras comunidades menores. Incluindo também europeus e libaneses.

Em 1982 o Senegal se uniu à Gâmbia para formar a confederação nominal de Senegâmbia. Mas a integração concebida pelos dois países nunca se observou na prática e a união foi dissolvida em 1989. O Senegal, entretanto, tem uma longa tradição histórica pela paz internacional. Na ilustração acima, na qual fiz menção às águas do Lago Rosa e ao mapa do continente africano, brinquei também com a silhueta de uma mulher. Agachada à esquerda, ela tem o contorno do Senegal. Seu cajado, por sua vez, representa a República da Gâmbia, geograficamente contida dentro do território senegalês.
Sol e Lua já foram crianças há muito tempo atrás, segundo dizem no Senegal. Ambos costumavam acompanhar seus pais no trabalho nos campos cultivados. A família do Sol ia para o Leste e cultivava o milhete. A família da Lua, ia para o Oeste e cultivava o sorgo. Ao entardecer, acabavam se encontrando no meio do caminho. Assim Celso Cisto começa a recontar esta narrativa etiológica, que será lançada em 2011 pela Editora Prumo, que tive a chance de ilustrar recentemente. 
A música africana sempre me encantou. Tenho alguns álbuns do cantor, compositor e percussionista Youssou N'Dour. Que também é embaixador da boa vontade para as Nações Unidas, Unicef e da Organização Mundial do Trabalho. Esse artista admirável vive em Dakar e se mantém fiel às suas origens e identidade, a despeito da sua receptividade musical aos novos gêneros. Embalado pela singular voz de Youssou N'Dour e pelo ritmo da sua banda, a Super Étoile de Dakar, produzi as imagens deste livro.

Além da música, entre as formas de arte mais populares no Senegal estão as pinturas feitas sob o vidro e as pinturas de areia. As útimas foram minha fonte. Normalmente os artistas combinam vários tipos de areia, com diferentes cores e tonalidades, conforme as características dos solos, praias, dunas, leitos de rios, áreas vulcânicas etc. Impedido de adotar a mesma técnica e materiais, optei por misturar areia, pigmentos, recursos digitais e grafismos de etnias tradicionais. Existem, por sinal, diversos grupos étnicos no país. Embora o francês seja o idioma oficial, a língua mais falada é o Wolof (do povo de mesmo nome), que corresponde a quase metade da população. Além dos Fulani, Serer, Jola, Bedick, Mandingo e outras comunidades menores. Incluindo também europeus e libaneses.

Em 1982 o Senegal se uniu à Gâmbia para formar a confederação nominal de Senegâmbia. Mas a integração concebida pelos dois países nunca se observou na prática e a união foi dissolvida em 1989. O Senegal, entretanto, tem uma longa tradição histórica pela paz internacional. Na ilustração acima, na qual fiz menção às águas do Lago Rosa e ao mapa do continente africano, brinquei também com a silhueta de uma mulher. Agachada à esquerda, ela tem o contorno do Senegal. Seu cajado, por sua vez, representa a República da Gâmbia, geograficamente contida dentro do território senegalês.
abril 01, 2011
VIRANDO GENTE GRANDE
VIRANDO GENTE GRANDE, RITUAIS INDÍGENAS DE PASSAGEM (Editora Moderna) é um livro que reúne histórias e informações sobre seis povos nativos: os Xavante, os Nambikara, os Bororo, os Guarani-Kaiowá, os Tapirapé e os Sateré-Mawé. Benedito Prezia, o autor, é pesquisador, assessor do CIMI e mestre em Linguística Geral pela USP. Celebrações de casamento ou formatura, por exemplo, são bem conhecidas e praticadas pela sociedade em geral. Contudo, existem muitos outros ritos tradicionais de passagem entre os povos indígenas. Boa parte deles sofreu com a influência da religião cristã e com a imposição de um modelo estrangeiro invasor. Muitos têm resistido. Outros buscam resgatar seus valores originais e sentidos profundos de sua origem, identidade e ancestralidade, frente à padronização cultural que empobrece, esteriliza e limita.

Os Tapirapé são um povo Tupi-Guarani originário da floresta do Pará. O contato com as frentes de expansão a partir do séc. XX os fez estreitar relação com os Karajá. Perderam parte de seu território tradicional para a agropecuária na década de 1990. Mas conseguiram reconhecimento oficial de duas TIs (terras indígenas), uma delas coabitada pelos Karajá. Porém, na TI Urubu Branco ainda enfrentam pressões e invasões de fazendeiros e garimpeiros. Moram em aldeia de formato circular, com a "casa dos homens" no centro, onde se reúnem à noite. Caçadas e pescarias são feitas pelas "sociedades de pássaros", isto é, grupos masculinos organizados por faixa etária. Cada um tem seu espírito protetor animal, que reverenciam. Atualmente educam as crianças em tapirapé e em português.

São amazônidas os Sateré-Mawé. Vivem entre os estados do Pará e do Amazonas. E falam uma língua Tupi bastante diferente das demais, por ser muito antiga e devido ao isolamento. Embora aguerridos, foram escravizados pelos portugueses no séc. XVIII e também vitimados por massacres durante a Cabanagem no séc. XIX. Povo de floresta, todos os seus clãs adotam animais protetores, para os quais dedicam rituais e oferendas. Apesar do catolicismo, muitos ainda praticam a tradição. São os primeiros a domesticar o guaraná, que chamam de uaraná-cecé, do qual obtém o çapó, uma bebida estimulante de leve amargor usada como suco e em rituais de cura. Ainda hoje praticam o ritual da tucandeira, para iniciar os meninos na vida adulta. A imagem acima faz um recorte da cerimônia.

Os Tapirapé são um povo Tupi-Guarani originário da floresta do Pará. O contato com as frentes de expansão a partir do séc. XX os fez estreitar relação com os Karajá. Perderam parte de seu território tradicional para a agropecuária na década de 1990. Mas conseguiram reconhecimento oficial de duas TIs (terras indígenas), uma delas coabitada pelos Karajá. Porém, na TI Urubu Branco ainda enfrentam pressões e invasões de fazendeiros e garimpeiros. Moram em aldeia de formato circular, com a "casa dos homens" no centro, onde se reúnem à noite. Caçadas e pescarias são feitas pelas "sociedades de pássaros", isto é, grupos masculinos organizados por faixa etária. Cada um tem seu espírito protetor animal, que reverenciam. Atualmente educam as crianças em tapirapé e em português.

São amazônidas os Sateré-Mawé. Vivem entre os estados do Pará e do Amazonas. E falam uma língua Tupi bastante diferente das demais, por ser muito antiga e devido ao isolamento. Embora aguerridos, foram escravizados pelos portugueses no séc. XVIII e também vitimados por massacres durante a Cabanagem no séc. XIX. Povo de floresta, todos os seus clãs adotam animais protetores, para os quais dedicam rituais e oferendas. Apesar do catolicismo, muitos ainda praticam a tradição. São os primeiros a domesticar o guaraná, que chamam de uaraná-cecé, do qual obtém o çapó, uma bebida estimulante de leve amargor usada como suco e em rituais de cura. Ainda hoje praticam o ritual da tucandeira, para iniciar os meninos na vida adulta. A imagem acima faz um recorte da cerimônia.
janeiro 11, 2011
NÓS SOMOS SÓ FILHOS!
A Zit Editora lançará em breve este delicado poema de Sulamy Katy, escritora Potiguara do litoral da Paraíba. Sobre suas origens a autora já lançou MEU LUGAR NO MUNDO (Ática, 2004), ilustrado por Fernando Vilela. NÓS SOMOS SÓ FILHOS! enfoca a percepção nativa, tradicional entre povos indígenas, sobre os laços que a tudo e a todos envolve. Compartilha com o leitor a regência dos ciclos, nexos e forças natureza. Emociona e faz pensar. Principalmente nos tantos artifícios, tão carentes de equilíbrio, que temos adotado para viver. Para converter esse texto sensível em livro, não caberiam fronteiras muito rígidas.

NÓS SOMOS SÓ FILHOS! tinha que virar um picture book, em que texto e imagens pudessem brotar juntos. Graças à autonomia concedida pela editora, procurei montar um chassi de projeto gráfico para entrelaçar o texto original – sob recortes e proporções variadas – com ilustrações intuitivas, feitas com pincel e cores diversas. O livro foi planejado para ter 32 páginas, ao longo das quais pude distribuir o texto em pequenos fragmentos. Todas as pinturas foram feitas sem esboço ou ideia prévia. Apenas me deixei levar pelo fluxo e pelos motes oferecidos por cada trecho do poema. As pranchas foram depois digitalizadas, tratadas e ajustadas para as dimensões do livro e necessidades do projeto gráfico.

NÓS SOMOS SÓ FILHOS! tinha que virar um picture book, em que texto e imagens pudessem brotar juntos. Graças à autonomia concedida pela editora, procurei montar um chassi de projeto gráfico para entrelaçar o texto original – sob recortes e proporções variadas – com ilustrações intuitivas, feitas com pincel e cores diversas. O livro foi planejado para ter 32 páginas, ao longo das quais pude distribuir o texto em pequenos fragmentos. Todas as pinturas foram feitas sem esboço ou ideia prévia. Apenas me deixei levar pelo fluxo e pelos motes oferecidos por cada trecho do poema. As pranchas foram depois digitalizadas, tratadas e ajustadas para as dimensões do livro e necessidades do projeto gráfico.
janeiro 05, 2011
OUVIRAM DO IPIRANGA

Mas aquelas águas não foram tão plácidas assim. Pelo menos, até a versão final do Hino Nacional Brasileiro. Que o diga o verde-louro dessa flâmula!
Num dia de arrumação, Beatriz recebe um presente do avô. Uma batuta que pertenceu a Francisco Manuel da Silva, autor da música do Hino Nacional. Ao dizer as palavras mágicas “Ouviram do Ipiranga” três vezes, a batuta ganha vida e conta à menina toda a história do hino. O livro OUVIRAM DO IPIRANGA, de Marcelo Duarte, será relançado pela Panda Books em 2011. Além de revelar o significado de cada palavra da letra do Hino Nacional, a obra apresenta passagens históricas e curiosas relacionadas à criação da letra. Também traz a letra do Hino Nacional Brasileiro, do Hino da Independência e da Proclamação da República, biografias dos personagens mencionados na obra (Dom Pedro I, por exemplo) e as novas ilustrações, que fiz misturando técnicas e materiais.

A imagem da rinha de galos ilustra a peleja musical entre o Padre José Maurício – mulato, filho de uma escrava e mestre da Capela Imperial desde 1808 – e o maestro Marcos Antônio Portugal – célebre autor português de óperas de sucesso – que desembarcou no Brasil com a Família Real em 1811. O título mais importante de música na época era justamente o de mestre da Capela Imperial. Equivaleria a ser regente da orquestra imperial.
dezembro 02, 2010
IPATY: O CURUMIM DA SELVA

Em 2011 será lançado este livro de Ely Macuxi, descendente do povo indígena Macuxi, que imediatamente faz lembrar a controvérsia em torno da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima, que durante anos consumiu muitas vidas, mobilizando sempre a atenção e a reflexão renovada de muitos brasileiros e estrangeiros. Na área demarcada – formada por imensas planícies aparentadas ao cerrado e cadeias de montanhas, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana – vivem cerca de vinte mil indígenas, sobretudo da etnia Macuxi. Além dos Wapixana, Ingarikó, Taurepang, entre outros.

Desde 2009, quando estivemos juntos na FLIMT em Cuiabá, Ely e eu imaginamos essa parceria editorial. E a Editora Paulinas nos deu enfim essa alegria. Pude então ilustrar as aventuras do curumim Ipaty, ou uma série de episódios típicos do cotidiano daquela região serrana, entre o cerrado e a floresta, às margens das àguas transparentes e refrescantes. Onde é tão quente no verão que, segundo o autor, as aves voam só com uma asa enquanto se abanam com a outra!

Ely epuinen amîrî? Perguntei em macuxi, língua nativa do tronco Karib. Traduzindo: você conhece o Ely? Pois Ely Ribeiro de Souza é índio Macuxi, professor concursado de História da rede pública de ensino em Manaus, ex-gerente de Educação Escolar Indígena na Secretaria Municipal de Educação, docente de antropologia na UNINTER e assessor de diversas organizações indígenas no Amazonas: Coiab, Copiam, CEEEI, Amarn, Wotchimaucu. Graduado em Filosofia, com Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia e especialização em Gestão e Etnodesenvolvimento, ambos na UFAM – Universidade Federal do Amazonas.
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