junho 06, 2011

POLÊMICA À PARTE: VIVER, APRENDER


Muito pano para manga deu a paranóia vazia armada em torno da excelente Coleção Viver, Aprender (Ação Educativa/Global Editora). Bizarro exemplo de cibridismo histérico. Da fricção entre a norma culta e o falar popular restou o abismo de incompreensão entre especialistas, curiosos e paraquedistas. No balaio de gato coube de tudo. Tolices sem fim, jornalismo rasteiro e conclusões apressadas. Há anos, eu e o designer parceiro Eduardo Okuno, temos produzido boa parte do material didático dessa coleção, desenvolvendo projetos gráficos. Ilustrei também vários desses volumes. Essas publicações de prestígio são uma referência no segmento. Muito nos espantou, portanto, o evidente despreparo crítico de certas vozes. E a maneira leviana com a qual parte da imprensa conduziu suas reportagens, pouco ou nada investigativas. A resposta organizada está abaixo disponível aos interessados. Consumiu o tempo que outros deveriam ter dedicado antes de tirar conclusões equivocadas.



6 comentários:

Grasiele disse...

Olá Mauricio, tudo bem? Esta coleção foi criada em São Paulo? Tenho interesse em adiquiri-la, sou professora do EJA aqui em Florianópolis e não temos material didático para nossos alunos. Você sabe me informar em como eu poderia adiquirir a coleção? Elá será distribuida? Obrigada. Grasiele

Mauricio Negro disse...

Bom dia, Grasiele. Você pode, por exemplo, entrar em contato com o departamento de vendas da Global Editora. Informe-se, por favor, com a Cláudia pelo telefone (11) 3277-7999 (ramal 212). Ou envie uma mensagem para ela pelo email projetosespeciais@globaleditora.com.br.Um abraço e obrigado pela visita!

Marco Haurélio disse...

Maurício, também me espantou a maneira rasteira como o tema foi abordado, especialmente pela mídia graúda e por aqueles que elevam a gramática normativa a altura do dogma. No meu blog, postei um texto do prof. Zenir Campos Reis, grande conhecedor do nosso idioma e, por isso mesmo, autoridade no assunto:

Língua oral e escrita

Por Zenir Campos Reis

Antes de ler e escrever, falamos. A fala requer longo aprendizado. A boca existe prioritariamente para comer. Primum vivere. Aos poucos, desenvolvemos essa habilidade secundária de adaptar a boca, lábios, dentes e língua, para a emissão de sons inteligíveis, distintivos, que vão compor as palavras. No convívio social, os mais velhos ensinam aos mais jovens as regras de combinação das palavras, isto é, as regras básicas de sintaxe.
A língua oral é econômica e tende à simplificação. Em português, por exemplo, a marca mais comum do plural é o “s” no final das palavras. Se esse fonema está presente no artigo fica entendido que estamos falando de mais de um objeto: o livro, os livro(s), um ou mais de um. Em outras línguas, o francês por exemplo, o “s” do plural nem é pronunciado: le livre, les livre(s). A marca do plural está presente apenas na diferença que a língua oral estabelece entre /le/ e /les/. Existem lingüistas que consideram a repetição da marca do plural uma espécie de pleonasmo, de repetição dispensável. Lembremo-nos da bela canção de Dorival Caymmi, “O bem do mar”, que começa assim:

O pescador tem dois amor
Um bem na terra,
Um bem no mar (bis)

O que fixa a língua é a letra, a escrita, para cuja conquista exige-se outro aprendizado, normalmente feito na escola. Compreende-se que a língua escrita não seja imediatamente acessível. Antropologicamente, na história da humanidade, o aparecimento da escrita parece estar relacionado ao surgimento de sociedades mais complexas e ao aparecimento da divisão social e da dominação. A posse da letra sinalizava o poder. A imprensa, então, é uma invenção tardia, do século XVI. O primeiro livro impresso foi uma Bíblia e a leitura e interpretação desse livro sagrado começou a ser objeto de disputa.
A língua portuguesa, língua latina, proveio não do latim erudito, mas do chamado “latim vulgar”, o latim oral, falado por soldados e colonos iletrados ou pouco letrados. Um escritor de origem húngara, Paulo Rónai, grande conhecedor de línguas, quando tomou contato com a língua portuguesa, diz que lhe parecia um latim falado por pessoas desdentadas. Possivelmente era uma impressão verdadeira. Com certeza eram iletrados, pessoas “simples”, mais ou menos sinônimo de pobres. Muitos deles, desdentados.
Esses pobres falavam, por exemplo “mágoa” ou “mancha”, em vez de “mácula”. Falavam “logro”, em vez de “lucro”. E diziam bem, diziam certo. Encontrei a palavra “resisto”, num sermão de Antônio Vieira, palavra que se diz em português do Brasil “registro”, ou, em Portugal, “registo”. Tudo muito certo, no contexto apropriado.
A disciplina gramatical costuma vir das camadas letradas, muitas vezes associadas ao poder político, isto é, às normas adotadas pelas autoridades políticas e transformadas em acordos, tratados, normas, transmitidos via ministérios, academias, escolas oficiais.
A realidade da língua viva é muito mais complexa e indisciplinada, porque a letra, que fixa a língua oral depende da alfabetização que não é universal, nem neste país nem em muitos outros países, mesmo do mundo dito desenvolvido. Uma longa conversa, como se vê.

Mauricio Negro disse...

Com efeito, Marco Haurélio. Agradeço o reforço e as colocações tão oportunas. Estive com o escritor Guarani Olívio Jekupé no Rio de Janeiro, para o lançamento do livro TEKOA, pela Coleção Muiraquitãs (Editora Global), lá no Salão FNLIJ. Pudemos falar um pouco com o público presente sobre essas questões linguísticas e culturais. A língua talvez seja ainda mais livre quando a manejamos oralmente. Sobre o livro há uma expectativa ilusória de estabilidade. Balela! A palavra impressa só se justifica pela expressa. A norma culta se alimenta da espontaneidade popular. Vira convenção aquilo que a invenção consagra. E o que está feito, conforme o contexto ou pretexto, pode até ser desfeito. Em português, pelo caminho da rigidez, apenas nos desentendemos.

Anônimo disse...

Olá.
Lendo o que você escreveu a respeito das razões para que esta obra, a coleção Viver e Aprender, compreendi bem o que os autores objetivavam. Aliás, você escreve e fala muito bem. Natural para um escritor, porém, mesmo assim, meus parabéns.
Agora sabendo que esta coleção destina-se a alfabetizar crianças e jovens em idade escolar e adultos não alfabetizados, pessoas que não possuem acesso à uma educação "de elite", será que os livros não seriam melhor recebidos se apenas ilustrassem os conflitos entre as "normas" para o público letrado adulto?
Por que as crianças devem, ao invés de aprenderem a ler e escrever corretamente, serem introduzidas nesta discussão sobre o que é o certo, de fato? Não precisariam primeiro entender o que tradicionalmente vem sendo ensinado nas últimas décadas, formarem-se e posteriormente, quando adultas, opinarem com maior conhecimento de causa?
Não acha você que há uma idéia de conformismo envolvendo a norma popular? O que quero dizer é que uma pessoa que está se alfabetizando já tem que se preocupar em aprender coisas demais numa escola, ainda mais se for uma criança.
Para que, com qual finalidade, com qual intenção o MEC pretende celebrar ainda mais as diferenças de escrita entre as classes sociais? Não seria melhor e mais nobre, procurar adequar o ensino público ao mesmo nível do ensino privado? Afinal tantos impostos pagamos para que essas verbas sejam utilizadas na educação e tudo o que vemos são propostas do MEC para criar cartilhas pro-gays e livros que ensinam que "falar errado é certo" e "falar certo é sinal de prestígio ostentado pela elite dominante"?
Eu não sou da elite dominante. Eu não domino ninguém. Eu não votei no Lula e nem na Dilma. E mesmo assi meles foram eleitos. A classe dominante, HOJE, é a classe que sempre foi a menos favorecida neste país. E se eu não posso escrever ou falar corretamente porque isto significa manifestar meu preconceito social, pessoas como eu e você estarão incorrendo em quais crimes, em breve?
Desculpe-me invadir seu espaço para lhe fazer estas perguntas. É que não concordo que o seu trabalho, embora tenha certeza de que seja um ótimo trabalho, deva se destinar ao ensino dos iletrados.

Mauricio Negro disse...

Agradeço a visita. Só lamento poder retornar aqui apenas, pois seu comentário chegou como anônimo. As apostilas do VIVER, APRENDER são feitas para os chamados jovens adultos, e não para crianças. Pessoas que, por uma razão ou por outra, não completaram a educação básica no tempo devido. EJA, ou Educacão de Jovens Adultos, é uma modalidade de ensino que muito deve ao educador Paulo Freire, e preenche uma lacuna na educação popular. Em outras palavras, o material do EJA representa uma preciosa oportunidade de aprendizado para muitos jovens e adultos em defasagem nos estudos. Essas pessoas precisam conhecer e dominar a norma culta, para a própria inserção e ascenção social.

Mas a norma culta somente sistematiza o repertório popular, e dele depende! O próprio Paulo Freire sonhava com uma escola que reconhecesse linguagem dos alunos. Que ensinasse a sintaxe dominante, sem desprezo pelas demais. Esse é a ideia!

Pouca gente se dá conta, e isso é super relevante, da diversidade liguística brasileira. Uma riqueza ameaçada pelo equívoco da homogeneização. O Brasil está entre os oito países mais polifônicos do mundo. Nos quais fala-se mais da metade das línguas do planeta. Atualmente são bem mais de duzentas línguas faladas no Brasil. Boa parte delas, nativa. Essas línguas inúmeras ofereceram uma generosa contribuição linguística ao nosso português filial. Que tornou-se incomparavelmente mais rico e colorido que o da matriz, graças a interculturalidade. Tanto que muitos especialistas afirmam que falamos brasileiro, em vez de português.

Nos parâmetros curriculares existe hoje uma política de inclusão liguística, pela aceitação das variedades pela e na escola. O que não implica necessariamente na valorização da "norma inculta", em detrimento da norma culta, mas na diferenciação e compreensão entre ambas. Já que legítimas e interdependentes elas são. Nenhum estudante pode então ser obrigado a perder sua identidade linguística. Condição terrível imposta, por exemplo, por Marquês de Pombal lá no séc. XVIII, pela dominação política. E mais tarde também com Getúlio Vargas que, em nome da "nacionalização do ensino", impôs a repressão linguística durante o Estado Novo. Quando seu governo fechou escolas comunitárias, gráficas de jornais alemães e italianos. E perseguiu, torturou e prendeu diversas pessoas por falarem suas línguas de origem.

Existe a norma culta e o falar popular. Contudo, toda escrita e a normatização do repertório oral de qualquer povo. Uma coisa inexiste sem a outra. E ambas precisam conviver, com bom senso e adequação.

Um abraço!