abril 10, 2012

A MENINA, O CORAÇÃO E A CASA

Altamente Recomendável FNLIJ 2013 - Produção 2012


A Global Editora publicará este delicado livro de María Teresa Andruetto. O lançamento será no dia 18 de abril, logo após o coquetel de abertura do 14° Salão FNLIJ do Livro para Crianças e Jovens, que acontecerá no Rio de Janeiro entre os dias 18 e 29. É comovente a prosa poética dessa autora argentina, nascida em Arroyo Cabral, Córdoba. Neste livro, com tradução da escritora Marina Colasanti, cuidei do projeto gráfico e das ilustrações de capa e miolo. A autora, que já recebeu uma série de menções, distinções e prêmios, acabou de levar o Prêmio Hans Christian Andersen de 2012. O brasileiro Roger Mello ficou entre os cinco ilustradores finalistas. Entre os escritores também foi finalista o saudoso Bartolomeu Campos de Queirós.

abril 04, 2012

O GUARANI


José de Alencar, criador de uma literatura nacionalista e maior romancista do Romantismo brasileiro, ao escrever O Guarani desejou fundar uma literatura brasileira autônoma de Portugal, com sintaxe e vocabulário típicos. A famosa história de amor entre o índio Peri e a moça branca Ceci – temperada com muita ação e traição, lutas e vingança – foi publicada antes como folhetim, em meados de 1857. Depois foi ajustada para virar livro. Ilustrei a capa desta edição para a Editora Martin Claret, na conhecida coleção que reúne obras-primas de grandes autores. No romance destacam-se as atitudes morais, de bravura, lealdade e firmeza moral atribuídas às certas personagens, inclusive indígenas, cujos valores são claramente utópicos e ufanistas. Mas é notável o destaque dado à oposição entre o nativo e o branco, o campo e a cidade, o sertão e o litoral.

janeiro 12, 2012

LITERATURA INDÍGENA EM REVISTA










A Revista Continente é uma publicação da Companhia Editora de Pernambuco (CEPE). Por Luiz Arrais, superintendente de criação, fui convidado a ilustrar a capa e a respectiva matéria especial da edição #133, que trata da chamada literatura indígena.

A matéria, assinada pela jornalista Isabelle Câmara, destaca o crescente interesse por obras de autores indígenas no cenário editorial brasileiro. Diversos autores são lembrados, tais como Marcos Terena, Eliane Potiguara, Graça Graúna, Olívio Jekupé, Nhenety Kariri-xokó, Tkainã, Vãngri Kaingáng e outros. Há também uma entrevista com o escritor Daniel Munduruku, que expõe sua percepção sobre a literatura indígena e toda a sua diversidade étnico-cultural. Também dei uma palhinha sobre o tema. Quem puder, confira a Continente, uma publicação muito bem cuidada.


Tanto tradicionais quanto contemporâneas, ilustrei a matéria com estas as duas licocós acima, ou bonecas de barro feitas pelas mulheres Karajá. Uma delas lê. Enquanto a outra, digita em seu laptop. A identidade, manifesta nas formas, adereços e pintura corporal, dialoga com a contemporaneidade. Já para capa fiz um tributo ao povo Kambiwá, natural do sertão do Pernambuco (Ibimirim, Inajá, Floresta). Com seu paramento de palha de caroá, e maracás em punho, um índio participa do ritual do praiá. Do diadema, disposto feito uma boca, em vez de penas projetam-se línguas. Cada qual relacionada a uma família linguística indígena. Essa mesma imagem foi premiada no XX Salão Internacional de Desenho para a Imprensa, na categoria "Ilustração Editorial" (Porto Alegre, 2012).

novembro 28, 2011

I - JUCA-PIRAMA

Para a Editora Martin Claret, uma ilustração de capa do livro de bolso que reúne o célebre épico brasileiro e outros poemas do mesmo autor. I - JUCA-PIRAMA é um canto a um guerreiro Tupi, aprisionado pelo povo Timbira, que sacrifica a sua própria honra ao pedir clemência na hora da morte, passando-se por covarde para poder oferecer ajuda ao velho pai, cego e doente. Este, no entanto, envergonha-se da sujeição do filho. Injustiçado, o bravo guerreiro lidera enfim um ataque dos Tupi aos Timbira.



De espírito romântico, com nacionalismo e verve indianista, Gonçalves Dias conferiu, ao lado de José de Alencar, brasilidade à literatura brasileira. Orgulhava-se por ter o sangue das três matrizes. Filho de pai português e mãe cafuza, foi poeta, dramaturgo, filólogo, professor e homem público. Trabalhou como caixeiro. Estudou latim, francês e filosofia. Completou seus estudos em Portugal. Fez Direito na Universidade de Coimbra. Participou do movimento medievista. Foi também jornalista, cronista, crítico literário e autor de folhetins teatrais. Também foi pesquisador e membro da Comissão Científica de Exploração, pela qual viajou por quase todo o norte do Brasil. Sua obra estimulou o sentimento nacionalista ao incorporar assuntos, povos e paisagens brasileiras.

outubro 27, 2011

AVENTURAS DO TUXAUA DAS ONÇAS


Com alegria comemoro o breve lançamento destas narrativas tradicionais do povo Sateré–Mawé (Paulinas Editora), selecionadas e recontadas pelo escritor indígena Tiago Hakiy e especialmente dedicadas aos seus filhos. Nosso primeiro encontro foi em 2009, em Cuiabá, quando participamos da primeira edição da FLIMT - Feira do Livro Indígena de Mato Grosso. Naquela ocasião, com carisma e fluidez, Tiago logo seduziu a platéia ao compartilhar seus poemas vestidos de verde, sangue, seiva, água, palavras de exaltação, beleza, orgulho, deslumbramento e identidade.


AWYATÓ-PÓT, o grande líder das onças, guerreiro reconhecido quando criança pelo painy (pajé) do povo Mawé, é o herói-civilizador protagonista das histórias reunidas pelo autor, ele próprio também um legítimo amazonense de Barreirinha e filho do povo Sateré-Mawé. Além de poeta e contador de histórias tradicionais, Tiago Hakiy é formado em Biblioteconomia pela UFAM (Universidade Federal do Amazonas), e atualmente trabalha como subsecretário de Cultura, Turismo e Meio Ambiente no munícipio de Barreirinha.

A obra, certamente não apenas para o deleite das crianças, conta a bela odisseia desse bravo índio Mawé, as circunstâncias do seu nascimento, a bravura e o espírito de liderança e alguns dos seus enfrentamentos – com a Surucucu e com o temível Juma – e mesmo diante de questões familiares íntimas. Episódios que revelam parte da percepção dos Sateré-Mawé, os filhos do guaraná, no alinhavo entre os planos físico e o metafísico, como também ocorre entre outras tradições autóctones. Ilustrado com técnica mista e sob inspiração gráfica da cerâmica tapajoara, ancestralidade longínqua provável dos Saterê-Mawé.

setembro 22, 2011

ADMIRÁVEL OVO NOVO


O pintinho Pit, personagem principal do escritor Paulo Venturelli neste livro pela Editora Positivo, faz a gente refletir sobre as crianças e os jovens urbanos. Muitos mal conhecem os trejeitos de uma galinha choca ou os cacoetes de um galo. Lá no sítio da minha infância, próximo de Cotia, passávamos temporadas longas e prazerosas. O maior prazer da minha avó, além da cozinha, era o galinheiro. Memória e inspiração afetiva.




As galinhas tinham ali um abrigo noturno, e de dia ciscavam livres, leves e soltas. Lembro de tentar adivinhar como seriam os pintinhos, tão parecidos no início, quando virassem adultos. As galinhas ficavam sempre por perto, e a sua liberdade vigiada me intrigava. Hoje me ocorre que a gente também choca, pia, sacode as penas, cozinha o galo, tem minhocas na cabeça e bota ovo em pé. Por isso misturei esses ingredientes todos ao criar as imagens deste ADMIRÁVEL OVO NOVO. Com uma pitada de humor, afeto, lembrança, risco e poesia. E pautadas por sentimentos e reflexões.


Nas ilustrações misturei recursos analógicos e digitais. Parte das texturas foram feitas com lápis grafite, tinta acrílica, fotografias de paredes descascadas, raspas de serragem, casca de ovos caipiras e outros elementos combinados na composição com um toque climático. Busquei um clima intimista, com recursos mínimos de narração e sugestão, para acompanhar a crise existencial pela qual passa o personagem principal, desde o sentimento de segurança e acolhimento do ovo, passando pelas atribulações da infância e adolescência, até finalmente virar um galo adulto.

julho 15, 2011

FALA COMIGO, PAI!


Tuna faz quinze anos e descobre que Rick, na verdade, é seu padrasto. Decide procurar por seu pai biológico na tentativa de compreender aquilo que o levou a abandonar a família anos atrás. Surfista descompromissado, Biel se deixou levar pelas ondas dos mares, surfando pelo gosto da aventura, até parar na Indonésia. Mal conheceu o filho que cresceu, tão parecido com ele, cabeça solta, o mar no sangue e a prancha nos pés. Pai e filho, um mar de solidão. Saudades de algo que jamais desfrutaram. Tuna viaja para encontrar Biel, sem imaginar o que brotará desse encontro.


Nunca tinha feito qualquer rabisco sobre surfe. Embora tive alguns amigos surfistas e temporadas deliciosas no litoral norte e sul de São Paulo. Quando a Editora Rovelle me convidou para criar as imagens e o projeto gráfico deste livro juvenil escrito pelo prolífico Júlio Emílio Braz, as memórias praianas vieram à tona. De mim esperavam uma abordagem inspirada na paisagem e grafismos étnicos, tradicionais, balineses, indonésios, australianos. Ou na estética ousada do universo do surfe.


Aceitei o desafio, porém, porque o eixo dramático da história me agradou. Notei que as tensões climáticas da trama ofereciam um pretexto diferente para ilustrar as passagens. Depois de tantos trabalhos gravados à fogo, senti um apelo para inverter o raciocínio. Percebi que poderia usar a água, seus humores e nuanças, para acompanhar o ritmo das marés e dos sentimentos oscilantes das personagens. No projeto gráfico, que ficou sob a responsabilidade do nosso estúdio, também buscamos favorecer esse partido. Na capa, para intensificar o efeito resplandecente do sol sobre o mar, utilizamos cold stamping no acabamento. Um produção editorial cuidadosa, que só foi possível graças ao entusiasmo e sinergia de todos.

julho 14, 2011

AKPALÔ GEOGRAFIA




Ilustração para a capa de Akpalô Geografia (Editora do Brasil), sob o mote do frevo pernambucano, que desenvolvi estimulado pelas últimas férias em Olinda. Já colaborei antes com as capas da disciplina de História. A Coleção Akpalô, da qual fazem parte, tem como objetivo estabelecer a distinção entre o saber histórico como campo de pesquisa e o saber histórico escolar, adaptado à vivência dos professores e alunos em sala de aula.

junho 06, 2011

POLÊMICA À PARTE: VIVER, APRENDER


Muito pano para manga deu a paranóia vazia armada em torno da excelente Coleção Viver, Aprender (Ação Educativa/Global Editora). Bizarro exemplo de cibridismo histérico. Da fricção entre a norma culta e o falar popular restou o abismo de incompreensão entre especialistas, curiosos e paraquedistas. No balaio de gato coube de tudo. Tolices sem fim, jornalismo rasteiro e conclusões apressadas. Há anos, eu e o designer parceiro Eduardo Okuno, temos produzido boa parte do material didático dessa coleção, desenvolvendo projetos gráficos. Ilustrei também vários desses volumes. Essas publicações de prestígio são uma referência no segmento. Muito nos espantou, portanto, o evidente despreparo crítico de certas vozes. E a maneira leviana com a qual parte da imprensa conduziu suas reportagens, pouco ou nada investigativas. A resposta organizada está abaixo disponível aos interessados. Consumiu o tempo que outros deveriam ter dedicado antes de tirar conclusões equivocadas.



maio 04, 2011

RAIO DE SOL, RAIO DE LUA

Bologna Children's Book FNLIJ Selection, 2012

Sol e Lua já foram crianças há muito tempo atrás, segundo dizem no Senegal. Ambos costumavam acompanhar seus pais no trabalho nos campos cultivados. A família do Sol ia para o Leste e cultivava o milhete. A família da Lua, ia para o Oeste e cultivava o sorgo. Ao entardecer, acabavam se encontrando no meio do caminho. Assim Celso Cisto começa a recontar esta narrativa etiológica, que será lançada em 2011 pela Editora Prumo, que tive a chance de ilustrar recentemente.


A música africana sempre me encantou. Tenho alguns álbuns do cantor, compositor e percussionista Youssou N'Dour. Que também é embaixador da boa vontade para as Nações Unidas, Unicef e da Organização Mundial do Trabalho. Esse artista admirável vive em Dakar e se mantém fiel às suas origens e identidade, a despeito da sua receptividade musical aos novos gêneros. Embalado pela singular voz de Youssou N'Dour e pelo ritmo da sua banda, a Super Étoile de Dakar, produzi as imagens deste livro.


Além da música, entre as formas de arte mais populares no Senegal estão as pinturas feitas sob o vidro e as pinturas de areia. As útimas foram minha fonte. Normalmente os artistas combinam vários tipos de areia, com diferentes cores e tonalidades, conforme as características dos solos, praias, dunas, leitos de rios, áreas vulcânicas etc. Impedido de adotar a mesma técnica e materiais, optei por misturar areia, pigmentos, recursos digitais e grafismos de etnias tradicionais. Existem, por sinal, diversos grupos étnicos no país. Embora o francês seja o idioma oficial, a língua mais falada é o Wolof (do povo de mesmo nome), que corresponde a quase metade da população. Além dos Fulani, Serer, Jola, Bedick, Mandingo e outras comunidades menores. Incluindo também europeus e libaneses.


Em 1982 o Senegal se uniu à Gâmbia para formar a confederação nominal de Senegâmbia. Mas a integração concebida pelos dois países nunca se observou na prática e a união foi dissolvida em 1989. O Senegal, entretanto, tem uma longa tradição histórica pela paz internacional. Na ilustração acima, na qual fiz menção às águas do Lago Rosa e ao mapa do continente africano, brinquei também com a silhueta de uma mulher. Agachada à esquerda, ela tem o contorno do Senegal. Seu cajado, por sua vez, representa a República da Gâmbia, geograficamente contida dentro do território senegalês.

abril 01, 2011

VIRANDO GENTE GRANDE

VIRANDO GENTE GRANDE, RITUAIS INDÍGENAS DE PASSAGEM (Editora Moderna) é um livro que reúne histórias e informações sobre seis povos nativos: os Xavante, os Nambikara, os Bororo, os Guarani-Kaiowá, os Tapirapé e os Sateré-Mawé. Benedito Prezia, o autor, é pesquisador, assessor do CIMI e mestre em Linguística Geral pela USP. Celebrações de casamento ou formatura, por exemplo, são bem conhecidas e praticadas pela sociedade em geral. Contudo, existem muitos outros ritos tradicionais de passagem entre os povos indígenas. Boa parte deles sofreu com a influência da religião cristã e com a imposição de um modelo estrangeiro invasor. Muitos têm resistido. Outros buscam resgatar seus valores originais e sentidos profundos de sua origem, identidade e ancestralidade, frente à padronização cultural que empobrece, esteriliza e limita.


Os Tapirapé são um povo Tupi-Guarani originário da floresta do Pará. O contato com as frentes de expansão a partir do séc. XX os fez estreitar relação com os Karajá. Perderam parte de seu território tradicional para a agropecuária na década de 1990. Mas conseguiram reconhecimento oficial de duas TIs (terras indígenas), uma delas coabitada pelos Karajá. Porém, na TI Urubu Branco ainda enfrentam pressões e invasões de fazendeiros e garimpeiros. Moram em aldeia de formato circular, com a "casa dos homens" no centro, onde se reúnem à noite. Caçadas e pescarias são feitas pelas "sociedades de pássaros", isto é, grupos masculinos organizados por faixa etária. Cada um tem seu espírito protetor animal, que reverenciam. Atualmente educam as crianças em tapirapé e em português.



São amazônidas os Sateré-Mawé. Vivem entre os estados do Pará e do Amazonas. E falam uma língua Tupi bastante diferente das demais, por ser muito antiga e devido ao isolamento. Embora aguerridos, foram escravizados pelos portugueses no séc. XVIII e também vitimados por massacres durante a Cabanagem no séc. XIX. Povo de floresta, todos os seus clãs adotam animais protetores, para os quais dedicam rituais e oferendas. Apesar do catolicismo, muitos ainda praticam a tradição. São os primeiros a domesticar o guaraná, que chamam de uaraná-cecé, do qual obtém o çapó, uma bebida estimulante de leve amargor usada como suco e em rituais de cura. Ainda hoje praticam o ritual da tucandeira, para iniciar os meninos na vida adulta. A imagem acima faz um recorte da cerimônia.

janeiro 11, 2011

NÓS SOMOS SÓ FILHOS!

A Zit Editora lançará em breve este delicado poema de Sulamy Katy, escritora Potiguara do litoral da Paraíba. Sobre suas origens a autora já lançou MEU LUGAR NO MUNDO (Ática, 2004), ilustrado por Fernando Vilela. NÓS SOMOS SÓ FILHOS! enfoca a percepção nativa, tradicional entre povos indígenas, sobre os laços que a tudo e a todos envolve. Compartilha com o leitor a regência dos ciclos, nexos e forças natureza. Emociona e faz pensar. Principalmente nos tantos artifícios, tão carentes de equilíbrio, que temos adotado para viver. Para converter esse texto sensível em livro, não caberiam fronteiras muito rígidas.




NÓS SOMOS SÓ FILHOS! tinha que virar um picture book, em que texto e imagens pudessem brotar juntos. Graças à autonomia concedida pela editora, procurei montar um chassi de projeto gráfico para entrelaçar o texto original – sob recortes e proporções variadas – com ilustrações intuitivas, feitas com pincel e cores diversas. O livro foi planejado para ter 32 páginas, ao longo das quais pude distribuir o texto em pequenos fragmentos. Todas as pinturas foram feitas sem esboço ou ideia prévia. Apenas me deixei levar pelo fluxo e pelos motes oferecidos por cada trecho do poema. As pranchas foram depois digitalizadas, tratadas e ajustadas para as dimensões do livro e necessidades do projeto gráfico.

janeiro 05, 2011

OUVIRAM DO IPIRANGA


Mas aquelas águas não foram tão plácidas assim. Pelo menos, até a versão final do Hino Nacional Brasileiro. Que o diga o verde-louro dessa flâmula!

Num dia de arrumação, Beatriz recebe um presente do avô. Uma batuta que pertenceu a Francisco Manuel da Silva, autor da música do Hino Nacional. Ao dizer as palavras mágicas “Ouviram do Ipiranga” três vezes, a batuta ganha vida e conta à menina toda a história do hino. O livro OUVIRAM DO IPIRANGA, de Marcelo Duarte, será relançado pela Panda Books em 2011. Além de revelar o significado de cada palavra da letra do Hino Nacional, a obra apresenta passagens históricas e curiosas relacionadas à criação da letra. Também traz a letra do Hino Nacional Brasileiro, do Hino da Independência e da Proclamação da República, biografias dos personagens mencionados na obra (Dom Pedro I, por exemplo) e as novas ilustrações, que fiz misturando técnicas e materiais.


A imagem da rinha de galos ilustra a peleja musical entre o Padre José Maurício – mulato, filho de uma escrava e mestre da Capela Imperial desde 1808 – e o maestro Marcos Antônio Portugal – célebre autor português de óperas de sucesso – que desembarcou no Brasil com a Família Real em 1811. O título mais importante de música na época era justamente o de mestre da Capela Imperial. Equivaleria a ser regente da orquestra imperial.

dezembro 02, 2010

IPATY: O CURUMIM DA SELVA


Em 2011 será lançado este livro de Ely Macuxi, descendente do povo indígena Macuxi, que imediatamente faz lembrar a controvérsia em torno da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima, que durante anos consumiu muitas vidas, mobilizando sempre a atenção e a reflexão renovada de muitos brasileiros e estrangeiros. Na área demarcada – formada por imensas planícies aparentadas ao cerrado e cadeias de montanhas, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana – vivem cerca de vinte mil indígenas, sobretudo da etnia Macuxi. Além dos Wapixana, Ingarikó, Taurepang, entre outros.


Desde 2009, quando estivemos juntos na FLIMT em Cuiabá, Ely e eu imaginamos essa parceria editorial. E a Editora Paulinas nos deu enfim essa alegria. Pude então ilustrar as aventuras do curumim Ipaty, ou uma série de episódios típicos do cotidiano daquela região serrana, entre o cerrado e a floresta, às margens das àguas transparentes e refrescantes. Onde é tão quente no verão que, segundo o autor, as aves voam só com uma asa enquanto se abanam com a outra!


Ely epuinen amîrî? Perguntei em macuxi, língua nativa do tronco Karib. Traduzindo: você conhece o Ely? Pois Ely Ribeiro de Souza é índio Macuxi, professor concursado de História da rede pública de ensino em Manaus, ex-gerente de Educação Escolar Indígena na Secretaria Municipal de Educação, docente de antropologia na UNINTER e assessor de diversas organizações indígenas no Amazonas: Coiab, Copiam, CEEEI, Amarn, Wotchimaucu. Graduado em Filosofia, com Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia e especialização em Gestão e Etnodesenvolvimento, ambos na UFAM – Universidade Federal do Amazonas.

setembro 27, 2010

ZERO: 35 ANOS

O escritor Ignácio de Loyola Brandão celebra os 35 anos da publicação de Zero, uma das obras mais comentadas da literatura brasileira na segunda metade do século XX, sempre presente nas listas dos cem melhores livros do século. No projeto gráfico da edição comemorativa, encomendado pela Global Editora, fizemos um furo na capa dura que ao leitor dá acesso às vinte capas de todas as edições publicadas no Brasil e no exterior, e também aos bastidores do livro. Cem páginas extras contam como e porque Zero foi escrito, bem como a sua trajetória internacional, a proibição, o sucesso e o impacto de sua estrutura de videoclip literário.

Há 35 anos Zero continua a marcar presença nas livrarias e é fonte de discussões em escolas de ensino médio, universidades e em eventos literários. Zero projetou Loyola em âmbito nacional e internacional. Para muitos críticos, trata-se da obra que melhor traduz nossos anos de chumbo. Desde quando foi liberado pela censura, em 1979, foram dez edições vendidas no Brasil, além das traduções para o alemão, coreano, espanhol, húngaro, inglês e tcheco. Zero provoca leitores de todas as gerações.






agosto 24, 2010

TEMPO DE CAJU


Final de agosto. Os cajueiros estão prestes desabrochar com as chuvas de maturi. Os Tupibambá atravessam uma lagoa de águas turvas sob a chuva. Enquanto isso, aguardamos a segunda edição impressa dessa história de um curumim apaixonado por caju, que tive o gosto de ilustrar. O livro integra agora a coleção Hora Viva, da Editora Positivo, e foi escrita com delicadeza e vitamina C pela cearense Socorro Acioli. Sua ficção, que mostra o relacionamento entre o avô Tamandaré e seu neto Porã, traz uma reflexão sobre o tempo, sobre os ciclos naturais e as transformações da vida.


Antes de começar a rabiscar, para entrar no clima da obra, fui xeretar um cajueiro frondoso que fica aqui pela vizinhança. Quando é tempo de caju, costuma ficar carregado e perfumado. Apanhei algumas folhas e a partir delas comecei a imaginar um entrelaçamento entre os reinos, embaralhando folhas, penas, asas e sementes. Porã adormece tranquilo aninhado na copa de um cajueiro. A primeira edição do livro, pela Secretaria da Educação do Estado do Ceará, foi ilustrada pelo Daniel Diaz, colega associado da SIB, para o Programa Alfabetização na Idade Certa PAIC.

julho 27, 2010

100 ANOS DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS

O célebre etnógrafo belga faleceu no ano passado, após completar um século de vida. Utilizava um febril sistema de pesquisa, monasticamente e embriagado de mitos, vivendo entre os indígenas que estudava. Entre 1960 e 1970 compilou centenas de narrativas, que formaram a base para o seu entendimento da condição humana. Viveu quatro anos no Brasil e colaborou na fundação da Universidade de São Paulo.


No livro O CRU E O COZIDO, referência principal que adotei para fazer esta ilustração para revista BIONestlé, Lévi-Strauss se debruça sobre os mitos seminais dos povos indígenas que conheceu no Brasil. O subtítulo da obra – representações míticas da passagem da natureza à cultura – dimensiona a importância da alimentação quanto à distinção entre animais e seres humanos. Todos os mitos que reuniu nesse livro falam da descoberta ou do manejo do fogo por diversos povos indígenas. Ou seja, tratam do momento em que deixamos de comer cru, metáfora da natureza, e adotamos o fogo, ou cultura em última análise. Mais adiante, pela evolução de suas reflexões, chega a estabelecer inclusive uma classificação entre assado e cozido. Assado como sinônimo de sensual na culinária. Cozido como análogo ao que é nutritivo. O modo de preparo e a fartura dos alimentos também foram observados. Para ele, comida boa e farta seria um antídoto contra a fome e o medo. E a sofisticação nas receitas, portanto, sinalizaria uma maior ordem social. Por mais universal que desejasse ser, Lévi-Strauss não escapou de sua própria cultura. Ou da influência das sua perspectiva européia. Analisou outros povos a partir do que comiam, vestiam e agiam. Sem alcançar a imparcialidade plena, algo provavelmente impossível a toda e qualquer análise. Mesmo à científica, que sempre terá um ponto de partida e referência.

junho 02, 2010

ÓPERA BRASIL DE EMBOLADA

Convidado pela Pallas, eu e Eduardo Okuno cuidamos do projeto gráfico do poema multiforme do Rodrigo Bittencourt. Para criar as imagens, parti das suas tantas sugestões, associações, trocadilhos e referências. Encarei o texto como uma letra de canção. Dessa maneira, o papel da música coube às ilustrações. O livro será lançado no 12º Salão FNLIJ para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro.

Acima uma justa homenagem ao Chico Buarque, nosso Bob Dylan, nas palavras do autor. E também ao genial baiano Dorival Caymmi, no canto superior direito. O inesquecível Garrincha, trickster do visgo do improviso e da beleza improvável, mereceu uma página dupla.



Rodrigo Bittencourt é um Zé Pilintra das artes, quizomba ambulante, Exu rock’n’roll. Misto de poeta, agitador cultural, compositor e apresentador de tv, cabe tudo no balaio do homem, brasileiro brasileiríssimo que é. Depois de se embrenhar em todos esses redemoinhos de Saci, eis que agora ele saca esta opereta pop, este samba-exaltação do crioulo doido, esta ode graciosa ao “mulato inzoneiro” Brasil, com jeito de conto de Sherazade cabocla, Irmãos Grimm do cerrado, cordel mp3, conto da Carochinha delirante.

Escrito para crianças dos 4 aos 84, Ópera Brasil de Embolada é um passeio pelas belezas e mazelas do nosso caldeirão cultural fervente, onde, em se plantando, tudo sempre deu e dá. Elegia alegórica da miscigenação, acaba por ser, mesmo sem querer, informativo e educador, ao traçar um painel multicolorido (e caótico, como o nosso país afinal!) das artes tupiniquins de (quase) todos os tempos.

Aquarela do Brasil partida em pedaços, playmobil de casa grande & senzala, a escrita de Rodrigo tem lirismo e loucura, carnaval e decadência, ritual e sátira, folia e lucidez. Macunaíma que foi à escola, Malasartes beatnik, Policarpo Quaresma funkeiro, o cara mistura lé com cré e zás e trás com cousa & lousa e etc e tal. O resultado é uma leitura saborosa e leve, onde o Brasil reluz como nação iluminada do futuro, não por obra de políticos e tecnocratas, mas unicamente pelas mãos e milagres de seus artistas e de seu povo.

Evoé, saravá, salamaleicon!

Zeca Baleiro
São Luís, 7 de maio de 2010

maio 27, 2010

AKPALÔ: HISTÓRIA E MÚSICA


Há algum tempo não fazia ilustrações para obras didáticas. Aceitei o convite da Editora do Brasil para produzir as capas de cinco títulos para estudantes do 1º ao 5º ano. A coleção se chama AKPALÔ que, em nagô, é aquele que conta e guarda de memória as histórias de seu povo. Fiquei encarregado das obras de Aline Correa, da disciplina de História. A partir das especificações prévias, montei diferentes cenas e personagens bem brasileiros. Sempre crianças, reguladas pela idade dos leitores. Cada qual com seu respectivo instrumento musical.

abril 21, 2010

DA BOCA AO PAPEL


Os contos folclóricos, coletados em 2005 e reunidos nesta coletânea, mais do que o esforço de preservação das nossas tradições populares, são peças de raro brilho literário. Alguns encontram ressonância na Índia dos Vedas; outros, no Egito dos faraós. Há, ainda, os que trazem retalhos da mitologia greco-romana ou de narrativas da Bíblia. Portanto, é impossível pôr em dúvida sua “ancianidade veneranda”, como costumava dizer mestre Câmara Cascudo. Diversão para crianças, entretenimento para os adultos após o trabalho, o conto folclórico conserva, também, informações de hábitos, costumes, ritos e mitos aparentemente desaparecidos ou esquecidos.


Com um gravador em mãos, o escritor, editor e cordelista Marco Haurélio foi a campo para registrar parte do patrimônio imaterial brasileiro. Pois o saboroso resultado de sua pesquisa está registrado na caprichada edição da Paulus, que tive o prazer de ilustrar e cuidar do projeto gráfico. Motivado pelo desafio, desenvolvi também uma fonte especialmente para a edição.


Um variedade de contos de animais, de encantamento, religiosos, acumulativos, novelescos, humorísticos e de exemplo integram a coleânea. As notas e a classificação ficaram a cargo do Dr. Paulo Correia, do conceituado Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Portugal. Na ilustração de página dupla acima misturam-se personagens e passagens de contos maravilhosos. Na dupla abaixo, o mesmo expediente foi adotado para ilustrar os contos de exemplo.


Diz o autor: "A partir de uma recolha feita no sertão da Bahia, numa área que abrange desde o Médio São Francisco (Serra do Ramalho) até a Serra Geral (Brumado), foi organizada uma antologia de contos populares. O trabalho tornou possível a preservação das histórias de minha infância, contadas por D. Luzia (minha avó), como Belisfronte (já vertida para o cordel), Guime e Guimar, Maria Borralheira e A Mentirosa. Os contos de D. Luzia foram relembrados por Valdi Fernandes Farias (meu pai) e Isaulite Fernandes Farias (Tia Lili). Dentre os narradores estão D. Jesuína Pereira Magalhães, nascida em 1915, e D. Maria Rosa Fróes, de Brumado, que em 2005, época da recolha, contava 87 janeiros de sabedoria."

Dia 5 de maio, quarta-feira, a partir das 19h.
Local: Livraria Cortez
Rua Bartira, 317 - Perdizes
Tel.: (11) 3873-7111
São Paulo — SP