junho 06, 2011

POLÊMICA À PARTE: VIVER, APRENDER


Muito pano para manga deu a paranóia vazia armada em torno da excelente Coleção Viver, Aprender (Ação Educativa/Global Editora). Bizarro exemplo de cibridismo histérico. Da fricção entre a norma culta e o falar popular restou o abismo de incompreensão entre especialistas, curiosos e paraquedistas. No balaio de gato coube de tudo. Tolices sem fim, jornalismo rasteiro e conclusões apressadas. Há anos, eu e o designer parceiro Eduardo Okuno, temos produzido boa parte do material didático dessa coleção, desenvolvendo projetos gráficos. Ilustrei também vários desses volumes. Essas publicações de prestígio são uma referência no segmento. Muito nos espantou, portanto, o evidente despreparo crítico de certas vozes. E a maneira leviana com a qual parte da imprensa conduziu suas reportagens, pouco ou nada investigativas. A resposta organizada está abaixo disponível aos interessados. Consumiu o tempo que outros deveriam ter dedicado antes de tirar conclusões equivocadas.



maio 04, 2011

RAIO DE SOL, RAIO DE LUA

Bologna Children's Book FNLIJ Selection, 2012

Sol e Lua já foram crianças há muito tempo atrás, segundo dizem no Senegal. Ambos costumavam acompanhar seus pais no trabalho nos campos cultivados. A família do Sol ia para o Leste e cultivava o milhete. A família da Lua, ia para o Oeste e cultivava o sorgo. Ao entardecer, acabavam se encontrando no meio do caminho. Assim Celso Cisto começa a recontar esta narrativa etiológica, que será lançada em 2011 pela Editora Prumo, que tive a chance de ilustrar recentemente.


A música africana sempre me encantou. Tenho alguns álbuns do cantor, compositor e percussionista Youssou N'Dour. Que também é embaixador da boa vontade para as Nações Unidas, Unicef e da Organização Mundial do Trabalho. Esse artista admirável vive em Dakar e se mantém fiel às suas origens e identidade, a despeito da sua receptividade musical aos novos gêneros. Embalado pela singular voz de Youssou N'Dour e pelo ritmo da sua banda, a Super Étoile de Dakar, produzi as imagens deste livro.


Além da música, entre as formas de arte mais populares no Senegal estão as pinturas feitas sob o vidro e as pinturas de areia. As útimas foram minha fonte. Normalmente os artistas combinam vários tipos de areia, com diferentes cores e tonalidades, conforme as características dos solos, praias, dunas, leitos de rios, áreas vulcânicas etc. Impedido de adotar a mesma técnica e materiais, optei por misturar areia, pigmentos, recursos digitais e grafismos de etnias tradicionais. Existem, por sinal, diversos grupos étnicos no país. Embora o francês seja o idioma oficial, a língua mais falada é o Wolof (do povo de mesmo nome), que corresponde a quase metade da população. Além dos Fulani, Serer, Jola, Bedick, Mandingo e outras comunidades menores. Incluindo também europeus e libaneses.


Em 1982 o Senegal se uniu à Gâmbia para formar a confederação nominal de Senegâmbia. Mas a integração concebida pelos dois países nunca se observou na prática e a união foi dissolvida em 1989. O Senegal, entretanto, tem uma longa tradição histórica pela paz internacional. Na ilustração acima, na qual fiz menção às águas do Lago Rosa e ao mapa do continente africano, brinquei também com a silhueta de uma mulher. Agachada à esquerda, ela tem o contorno do Senegal. Seu cajado, por sua vez, representa a República da Gâmbia, geograficamente contida dentro do território senegalês.

abril 01, 2011

VIRANDO GENTE GRANDE

VIRANDO GENTE GRANDE, RITUAIS INDÍGENAS DE PASSAGEM (Editora Moderna) é um livro que reúne histórias e informações sobre seis povos nativos: os Xavante, os Nambikara, os Bororo, os Guarani-Kaiowá, os Tapirapé e os Sateré-Mawé. Benedito Prezia, o autor, é pesquisador, assessor do CIMI e mestre em Linguística Geral pela USP. Celebrações de casamento ou formatura, por exemplo, são bem conhecidas e praticadas pela sociedade em geral. Contudo, existem muitos outros ritos tradicionais de passagem entre os povos indígenas. Boa parte deles sofreu com a influência da religião cristã e com a imposição de um modelo estrangeiro invasor. Muitos têm resistido. Outros buscam resgatar seus valores originais e sentidos profundos de sua origem, identidade e ancestralidade, frente à padronização cultural que empobrece, esteriliza e limita.


Os Tapirapé são um povo Tupi-Guarani originário da floresta do Pará. O contato com as frentes de expansão a partir do séc. XX os fez estreitar relação com os Karajá. Perderam parte de seu território tradicional para a agropecuária na década de 1990. Mas conseguiram reconhecimento oficial de duas TIs (terras indígenas), uma delas coabitada pelos Karajá. Porém, na TI Urubu Branco ainda enfrentam pressões e invasões de fazendeiros e garimpeiros. Moram em aldeia de formato circular, com a "casa dos homens" no centro, onde se reúnem à noite. Caçadas e pescarias são feitas pelas "sociedades de pássaros", isto é, grupos masculinos organizados por faixa etária. Cada um tem seu espírito protetor animal, que reverenciam. Atualmente educam as crianças em tapirapé e em português.



São amazônidas os Sateré-Mawé. Vivem entre os estados do Pará e do Amazonas. E falam uma língua Tupi bastante diferente das demais, por ser muito antiga e devido ao isolamento. Embora aguerridos, foram escravizados pelos portugueses no séc. XVIII e também vitimados por massacres durante a Cabanagem no séc. XIX. Povo de floresta, todos os seus clãs adotam animais protetores, para os quais dedicam rituais e oferendas. Apesar do catolicismo, muitos ainda praticam a tradição. São os primeiros a domesticar o guaraná, que chamam de uaraná-cecé, do qual obtém o çapó, uma bebida estimulante de leve amargor usada como suco e em rituais de cura. Ainda hoje praticam o ritual da tucandeira, para iniciar os meninos na vida adulta. A imagem acima faz um recorte da cerimônia.

janeiro 11, 2011

NÓS SOMOS SÓ FILHOS!

A Zit Editora lançará em breve este delicado poema de Sulamy Katy, escritora Potiguara do litoral da Paraíba. Sobre suas origens a autora já lançou MEU LUGAR NO MUNDO (Ática, 2004), ilustrado por Fernando Vilela. NÓS SOMOS SÓ FILHOS! enfoca a percepção nativa, tradicional entre povos indígenas, sobre os laços que a tudo e a todos envolve. Compartilha com o leitor a regência dos ciclos, nexos e forças natureza. Emociona e faz pensar. Principalmente nos tantos artifícios, tão carentes de equilíbrio, que temos adotado para viver. Para converter esse texto sensível em livro, não caberiam fronteiras muito rígidas.




NÓS SOMOS SÓ FILHOS! tinha que virar um picture book, em que texto e imagens pudessem brotar juntos. Graças à autonomia concedida pela editora, procurei montar um chassi de projeto gráfico para entrelaçar o texto original – sob recortes e proporções variadas – com ilustrações intuitivas, feitas com pincel e cores diversas. O livro foi planejado para ter 32 páginas, ao longo das quais pude distribuir o texto em pequenos fragmentos. Todas as pinturas foram feitas sem esboço ou ideia prévia. Apenas me deixei levar pelo fluxo e pelos motes oferecidos por cada trecho do poema. As pranchas foram depois digitalizadas, tratadas e ajustadas para as dimensões do livro e necessidades do projeto gráfico.

janeiro 05, 2011

OUVIRAM DO IPIRANGA


Mas aquelas águas não foram tão plácidas assim. Pelo menos, até a versão final do Hino Nacional Brasileiro. Que o diga o verde-louro dessa flâmula!

Num dia de arrumação, Beatriz recebe um presente do avô. Uma batuta que pertenceu a Francisco Manuel da Silva, autor da música do Hino Nacional. Ao dizer as palavras mágicas “Ouviram do Ipiranga” três vezes, a batuta ganha vida e conta à menina toda a história do hino. O livro OUVIRAM DO IPIRANGA, de Marcelo Duarte, será relançado pela Panda Books em 2011. Além de revelar o significado de cada palavra da letra do Hino Nacional, a obra apresenta passagens históricas e curiosas relacionadas à criação da letra. Também traz a letra do Hino Nacional Brasileiro, do Hino da Independência e da Proclamação da República, biografias dos personagens mencionados na obra (Dom Pedro I, por exemplo) e as novas ilustrações, que fiz misturando técnicas e materiais.


A imagem da rinha de galos ilustra a peleja musical entre o Padre José Maurício – mulato, filho de uma escrava e mestre da Capela Imperial desde 1808 – e o maestro Marcos Antônio Portugal – célebre autor português de óperas de sucesso – que desembarcou no Brasil com a Família Real em 1811. O título mais importante de música na época era justamente o de mestre da Capela Imperial. Equivaleria a ser regente da orquestra imperial.

dezembro 02, 2010

IPATY: O CURUMIM DA SELVA


Em 2011 será lançado este livro de Ely Macuxi, descendente do povo indígena Macuxi, que imediatamente faz lembrar a controvérsia em torno da demarcação da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, no Estado de Roraima, que durante anos consumiu muitas vidas, mobilizando sempre a atenção e a reflexão renovada de muitos brasileiros e estrangeiros. Na área demarcada – formada por imensas planícies aparentadas ao cerrado e cadeias de montanhas, na fronteira entre Brasil, Venezuela e Guiana – vivem cerca de vinte mil indígenas, sobretudo da etnia Macuxi. Além dos Wapixana, Ingarikó, Taurepang, entre outros.


Desde 2009, quando estivemos juntos na FLIMT em Cuiabá, Ely e eu imaginamos essa parceria editorial. E a Editora Paulinas nos deu enfim essa alegria. Pude então ilustrar as aventuras do curumim Ipaty, ou uma série de episódios típicos do cotidiano daquela região serrana, entre o cerrado e a floresta, às margens das àguas transparentes e refrescantes. Onde é tão quente no verão que, segundo o autor, as aves voam só com uma asa enquanto se abanam com a outra!


Ely epuinen amîrî? Perguntei em macuxi, língua nativa do tronco Karib. Traduzindo: você conhece o Ely? Pois Ely Ribeiro de Souza é índio Macuxi, professor concursado de História da rede pública de ensino em Manaus, ex-gerente de Educação Escolar Indígena na Secretaria Municipal de Educação, docente de antropologia na UNINTER e assessor de diversas organizações indígenas no Amazonas: Coiab, Copiam, CEEEI, Amarn, Wotchimaucu. Graduado em Filosofia, com Mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia e especialização em Gestão e Etnodesenvolvimento, ambos na UFAM – Universidade Federal do Amazonas.

setembro 27, 2010

ZERO: 35 ANOS

O escritor Ignácio de Loyola Brandão celebra os 35 anos da publicação de Zero, uma das obras mais comentadas da literatura brasileira na segunda metade do século XX, sempre presente nas listas dos cem melhores livros do século. No projeto gráfico da edição comemorativa, encomendado pela Global Editora, fizemos um furo na capa dura que ao leitor dá acesso às vinte capas de todas as edições publicadas no Brasil e no exterior, e também aos bastidores do livro. Cem páginas extras contam como e porque Zero foi escrito, bem como a sua trajetória internacional, a proibição, o sucesso e o impacto de sua estrutura de videoclip literário.

Há 35 anos Zero continua a marcar presença nas livrarias e é fonte de discussões em escolas de ensino médio, universidades e em eventos literários. Zero projetou Loyola em âmbito nacional e internacional. Para muitos críticos, trata-se da obra que melhor traduz nossos anos de chumbo. Desde quando foi liberado pela censura, em 1979, foram dez edições vendidas no Brasil, além das traduções para o alemão, coreano, espanhol, húngaro, inglês e tcheco. Zero provoca leitores de todas as gerações.






agosto 24, 2010

TEMPO DE CAJU


Final de agosto. Os cajueiros estão prestes desabrochar com as chuvas de maturi. Os Tupibambá atravessam uma lagoa de águas turvas sob a chuva. Enquanto isso, aguardamos a segunda edição impressa dessa história de um curumim apaixonado por caju, que tive o gosto de ilustrar. O livro integra agora a coleção Hora Viva, da Editora Positivo, e foi escrita com delicadeza e vitamina C pela cearense Socorro Acioli. Sua ficção, que mostra o relacionamento entre o avô Tamandaré e seu neto Porã, traz uma reflexão sobre o tempo, sobre os ciclos naturais e as transformações da vida.


Antes de começar a rabiscar, para entrar no clima da obra, fui xeretar um cajueiro frondoso que fica aqui pela vizinhança. Quando é tempo de caju, costuma ficar carregado e perfumado. Apanhei algumas folhas e a partir delas comecei a imaginar um entrelaçamento entre os reinos, embaralhando folhas, penas, asas e sementes. Porã adormece tranquilo aninhado na copa de um cajueiro. A primeira edição do livro, pela Secretaria da Educação do Estado do Ceará, foi ilustrada pelo Daniel Diaz, colega associado da SIB, para o Programa Alfabetização na Idade Certa PAIC.

julho 27, 2010

100 ANOS DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS

O célebre etnógrafo belga faleceu no ano passado, após completar um século de vida. Utilizava um febril sistema de pesquisa, monasticamente e embriagado de mitos, vivendo entre os indígenas que estudava. Entre 1960 e 1970 compilou centenas de narrativas, que formaram a base para o seu entendimento da condição humana. Viveu quatro anos no Brasil e colaborou na fundação da Universidade de São Paulo.


No livro O CRU E O COZIDO, referência principal que adotei para fazer esta ilustração para revista BIONestlé, Lévi-Strauss se debruça sobre os mitos seminais dos povos indígenas que conheceu no Brasil. O subtítulo da obra – representações míticas da passagem da natureza à cultura – dimensiona a importância da alimentação quanto à distinção entre animais e seres humanos. Todos os mitos que reuniu nesse livro falam da descoberta ou do manejo do fogo por diversos povos indígenas. Ou seja, tratam do momento em que deixamos de comer cru, metáfora da natureza, e adotamos o fogo, ou cultura em última análise. Mais adiante, pela evolução de suas reflexões, chega a estabelecer inclusive uma classificação entre assado e cozido. Assado como sinônimo de sensual na culinária. Cozido como análogo ao que é nutritivo. O modo de preparo e a fartura dos alimentos também foram observados. Para ele, comida boa e farta seria um antídoto contra a fome e o medo. E a sofisticação nas receitas, portanto, sinalizaria uma maior ordem social. Por mais universal que desejasse ser, Lévi-Strauss não escapou de sua própria cultura. Ou da influência das sua perspectiva européia. Analisou outros povos a partir do que comiam, vestiam e agiam. Sem alcançar a imparcialidade plena, algo provavelmente impossível a toda e qualquer análise. Mesmo à científica, que sempre terá um ponto de partida e referência.

junho 02, 2010

ÓPERA BRASIL DE EMBOLADA

Convidado pela Pallas, eu e Eduardo Okuno cuidamos do projeto gráfico do poema multiforme do Rodrigo Bittencourt. Para criar as imagens, parti das suas tantas sugestões, associações, trocadilhos e referências. Encarei o texto como uma letra de canção. Dessa maneira, o papel da música coube às ilustrações. O livro será lançado no 12º Salão FNLIJ para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro.

Acima uma justa homenagem ao Chico Buarque, nosso Bob Dylan, nas palavras do autor. E também ao genial baiano Dorival Caymmi, no canto superior direito. O inesquecível Garrincha, trickster do visgo do improviso e da beleza improvável, mereceu uma página dupla.



Rodrigo Bittencourt é um Zé Pilintra das artes, quizomba ambulante, Exu rock’n’roll. Misto de poeta, agitador cultural, compositor e apresentador de tv, cabe tudo no balaio do homem, brasileiro brasileiríssimo que é. Depois de se embrenhar em todos esses redemoinhos de Saci, eis que agora ele saca esta opereta pop, este samba-exaltação do crioulo doido, esta ode graciosa ao “mulato inzoneiro” Brasil, com jeito de conto de Sherazade cabocla, Irmãos Grimm do cerrado, cordel mp3, conto da Carochinha delirante.

Escrito para crianças dos 4 aos 84, Ópera Brasil de Embolada é um passeio pelas belezas e mazelas do nosso caldeirão cultural fervente, onde, em se plantando, tudo sempre deu e dá. Elegia alegórica da miscigenação, acaba por ser, mesmo sem querer, informativo e educador, ao traçar um painel multicolorido (e caótico, como o nosso país afinal!) das artes tupiniquins de (quase) todos os tempos.

Aquarela do Brasil partida em pedaços, playmobil de casa grande & senzala, a escrita de Rodrigo tem lirismo e loucura, carnaval e decadência, ritual e sátira, folia e lucidez. Macunaíma que foi à escola, Malasartes beatnik, Policarpo Quaresma funkeiro, o cara mistura lé com cré e zás e trás com cousa & lousa e etc e tal. O resultado é uma leitura saborosa e leve, onde o Brasil reluz como nação iluminada do futuro, não por obra de políticos e tecnocratas, mas unicamente pelas mãos e milagres de seus artistas e de seu povo.

Evoé, saravá, salamaleicon!

Zeca Baleiro
São Luís, 7 de maio de 2010

maio 27, 2010

AKPALÔ: HISTÓRIA E MÚSICA


Há algum tempo não fazia ilustrações para obras didáticas. Aceitei o convite da Editora do Brasil para produzir as capas de cinco títulos para estudantes do 1º ao 5º ano. A coleção se chama AKPALÔ que, em nagô, é aquele que conta e guarda de memória as histórias de seu povo. Fiquei encarregado das obras de Aline Correa, da disciplina de História. A partir das especificações prévias, montei diferentes cenas e personagens bem brasileiros. Sempre crianças, reguladas pela idade dos leitores. Cada qual com seu respectivo instrumento musical.

abril 21, 2010

DA BOCA AO PAPEL


Os contos folclóricos, coletados em 2005 e reunidos nesta coletânea, mais do que o esforço de preservação das nossas tradições populares, são peças de raro brilho literário. Alguns encontram ressonância na Índia dos Vedas; outros, no Egito dos faraós. Há, ainda, os que trazem retalhos da mitologia greco-romana ou de narrativas da Bíblia. Portanto, é impossível pôr em dúvida sua “ancianidade veneranda”, como costumava dizer mestre Câmara Cascudo. Diversão para crianças, entretenimento para os adultos após o trabalho, o conto folclórico conserva, também, informações de hábitos, costumes, ritos e mitos aparentemente desaparecidos ou esquecidos.


Com um gravador em mãos, o escritor, editor e cordelista Marco Haurélio foi a campo para registrar parte do patrimônio imaterial brasileiro. Pois o saboroso resultado de sua pesquisa está registrado na caprichada edição da Paulus, que tive o prazer de ilustrar e cuidar do projeto gráfico. Motivado pelo desafio, desenvolvi também uma fonte especialmente para a edição.


Um variedade de contos de animais, de encantamento, religiosos, acumulativos, novelescos, humorísticos e de exemplo integram a coleânea. As notas e a classificação ficaram a cargo do Dr. Paulo Correia, do conceituado Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Portugal. Na ilustração de página dupla acima misturam-se personagens e passagens de contos maravilhosos. Na dupla abaixo, o mesmo expediente foi adotado para ilustrar os contos de exemplo.


Diz o autor: "A partir de uma recolha feita no sertão da Bahia, numa área que abrange desde o Médio São Francisco (Serra do Ramalho) até a Serra Geral (Brumado), foi organizada uma antologia de contos populares. O trabalho tornou possível a preservação das histórias de minha infância, contadas por D. Luzia (minha avó), como Belisfronte (já vertida para o cordel), Guime e Guimar, Maria Borralheira e A Mentirosa. Os contos de D. Luzia foram relembrados por Valdi Fernandes Farias (meu pai) e Isaulite Fernandes Farias (Tia Lili). Dentre os narradores estão D. Jesuína Pereira Magalhães, nascida em 1915, e D. Maria Rosa Fróes, de Brumado, que em 2005, época da recolha, contava 87 janeiros de sabedoria."

Dia 5 de maio, quarta-feira, a partir das 19h.
Local: Livraria Cortez
Rua Bartira, 317 - Perdizes
Tel.: (11) 3873-7111
São Paulo — SP

março 01, 2010


Para a ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) produzimos, uma vez mais, a Identidade Visual do III Prêmio de Monografia em Crédito Imobiliário e Poupança. O concurso, aberto a profissionais e universitários, premiará as melhores monografias em dois temas: alternativas de funding e sistemas de amortização. A ilustração costura os dois temas, relacionados à questão do investimento imobiliário.

fevereiro 26, 2010

CADEIRAS PROIBIDAS


Nos anos 1970, Loyola escrevia crônicas para o Jornal Última Hora. Durante a ditadura, desconfiava-se de tudo e de todos. Sob tal tensão, seus textos viravam contos. Irônicos, cínicos, irreverentes, loucos, críticos, absurdos, profundos. Homens que viram barbantes. Mulheres que contam janelas. Gente que atravessa vidros. Um big-brother poético. O de Orwell, naturalmente. Achei interessante explorar o nonsense geométrico e as ilusões de ótica, à maneira do holandês Escher. Evitei assim explicitar a violência e a repressão. Somente insinuando o real. Na mesma levada dos contos.

fevereiro 11, 2010

HISTÓRIAS INDÍGENAS DE ASSUSTAR


Finalizando a trilogia de narrativas nativas, recontadas pelo escritor Daniel Munduruku , a Global em breve lançará o livro A CAVEIRA ROLANTE, A MULHER LESMA E OUTRAS HISTÓRIAS INDÍGENAS DE ASSUSTAR. Depois de ilustrar os dois primeiros títulos da premiada antologia, que trazem histórias de amor e de origem, tive agora a oportunidade de ilustrar personagens e enredos soturnos, patrimônio cultural dos povos Tukano, Tembé, Karajá, Macurap e Ajuru.


As histórias aqui recontadas pelo Daniel enfatizam o papel estratégico do medo na construção dos sentidos e na sobrevivência humana. Além da mistura de tinturas naturais com anilinas, que adoto com frequência, também utilizei elementos tridimensionais na confecção das ilustrações. Certas pirogravuras levam sementes, espinhos, palha de milho, folhas, raízes, xaxim de côco, madeira, penugem, casca de fruta ou até pipocas. Licença poética à parte, formas e grafismos foram referenciados pelas respectivas culturas originais. O fotógrafo Miguel Chaves fez a captura final das imagens.

fevereiro 02, 2010

ALMANAQUE BRASIL

Dia 2 de fevereiro é dia de festa no mar. Saudações à rainha das águas! A carranca pirogravada – fogo e água – estará na próxima capa da Almanaque Brasil.

A nova edição da revista de bordo da TAM trará a história da navegação brasileira como tema principal: os barcos indígenas, jangadas e canoas, a surpresa dos primeiros europeus ao conhecer as sofisticadas formas de navegação dos nativos, a influência tecnológica estrangeira, nossa tradição marítima e fluvial, as comunidades pesqueiras, gente do mar como João Cândido e Amir Klynk e, claro, as singulares carrancas do rio São Francisco.

Talvez tais figuras de proa fossem feitas, a princípio, com um objetivo comercial. Por volta de 1888, os ribeirinhos dependiam do transporte de mercadorias pelo rio. E os barqueiros buscavam chamar a atenção do povo para suas embarcações. Aos poucos, atribuiu-se às carrancas a propriedade de afugentar maus espíritos e caboclos d'água. Admirável expressão artística popular brasileira, as carrancas são horrendas e belas.

dezembro 09, 2009

2010: ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE


Acima uma pequena amostra multicolorida da nossa avifauna, face externa do cartão de boas festas feito para a Global Editora. O tema 2010: ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE, conforme declarado pela Assembléia Geral da ONU, foi o gancho. Em outubro teve início uma campanha de sensibilização para a salvaguarda da biodiversidade. Precisamos contrapor a perda da biodiversidade no mundo, mil vezes superior ao ritmo natural. Para não estragar a surpresa alheia, não postei a ilustração interna que fecha o conceito com uma mensagem de fim de ano com um paralelo entre a diversidade brasileira biológica e literária. Perdão aos especialistas sobre as eventuais incorreções técnicas. Esta é a versão não revisada.

UN Secretary General Welcome Message for the 2010 International Year of Biodiversity from CBD on Vimeo.

outubro 28, 2009

O KARAÍBA


Terá Cabral errado o caminho pela pouca experiência em navegação? Terá sido obra dos ventos ou do acaso? Ou terá sido caso pensado? Quem pode dizer? As consequências desse descobrimento, já sabemos. Conhecemos a versão oficial, fruto de uma única perspectiva. Mas e aqueles que aqui já viviam há quarenta ou cinquenta mil anos? Como viviam, pensavam, compreendiam, agiam, amavam, acreditavam e se relacionavam antes da chegada dos europeus? Teria alguém dado ouvidos ao Karaíba, o sábio visionário que prenunciou a tormenta nas suas terras, águas, costumes, que modificaria tudo o que existia?


Desvendar esse passado de nossas terras na era pré-cabralina é o mote deste novo livro de Daniel Munduruku, breve lançamento pelo selo Amarilys, da Manole. Nas palavras do próprio Karaíba: “é preciso conhecer o passado para entender o presente e sonhar um futuro”. Para isso, Daniel voltou no tempo, buscou memórias ancestrais e costumes. No desafio de reconstruir a visão, por vezes deturpada, do que se passou séculos atrás.


A obra não desfaz as certezas do homem branco que narrou o descobrimento. Revela, porém, que muito nos falta para que possamos vislumbrar o futuro do Brasil. Conhecer e compreender esse passado nunca plenamente contado é apenas o primeiro passo nessa direção.

setembro 30, 2009

UMA HISTÓRIA DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Mais uma imagem feita para a abertura do livro de Walter Fraga e Wlamyra R. de Albuquerque, novo lançamento da Editora Moderna. Os povos africanos que vieram para o Brasil trouxeram um imenso repertório de saberes, relacionados a técnicas de cultivo, religiosidade, música, culinária etc. No Brasil aconteceu uma notável interação dos povos de diferentes regiões da África. O contato com as tradições portuguesas e indígenas, também gerou uma cultura original, diversificada e muito rica: a cultura afro-brasileira.

setembro 04, 2009

BANQUETE PARA EDUCADORES


A Global editora pretende lançar este livro, de Daniel Munduruku, durante a Feira do Livro Indigena de Mato Grosso (FLIMT). A publicação é destinada aos educadores, sejam pais, mães ou professores. Trata das dificuldades atuais no desempenho desse papel, diante da crise de valores e referências na sociedade contemporânea, buscando soluções a partir do resgate da ancestralidade brasileira. E, sobretudo, motivado pela perspectiva orgânica, circular e holística tão característica das culturas nativas. Em parceria, Luciano Tasso e eu, produzimos todas ilustrações monocromáticas de capa e miolo. A obra será, a princípio, lançada durante a FLIMT, no centro históricos de Cuiabá, no dia 09 de outubro próximo. Por conta disso, estamos chacoalhando os nossos maracás!