setembro 27, 2010

ZERO: 35 ANOS

O escritor Ignácio de Loyola Brandão celebra os 35 anos da publicação de Zero, uma das obras mais comentadas da literatura brasileira na segunda metade do século XX, sempre presente nas listas dos cem melhores livros do século. No projeto gráfico da edição comemorativa, encomendado pela Global Editora, fizemos um furo na capa dura que ao leitor dá acesso às vinte capas de todas as edições publicadas no Brasil e no exterior, e também aos bastidores do livro. Cem páginas extras contam como e porque Zero foi escrito, bem como a sua trajetória internacional, a proibição, o sucesso e o impacto de sua estrutura de videoclip literário.

Há 35 anos Zero continua a marcar presença nas livrarias e é fonte de discussões em escolas de ensino médio, universidades e em eventos literários. Zero projetou Loyola em âmbito nacional e internacional. Para muitos críticos, trata-se da obra que melhor traduz nossos anos de chumbo. Desde quando foi liberado pela censura, em 1979, foram dez edições vendidas no Brasil, além das traduções para o alemão, coreano, espanhol, húngaro, inglês e tcheco. Zero provoca leitores de todas as gerações.






agosto 24, 2010

TEMPO DE CAJU


Final de agosto. Os cajueiros estão prestes desabrochar com as chuvas de maturi. Os Tupibambá atravessam uma lagoa de águas turvas sob a chuva. Enquanto isso, aguardamos a segunda edição impressa dessa história de um curumim apaixonado por caju, que tive o gosto de ilustrar. O livro integra agora a coleção Hora Viva, da Editora Positivo, e foi escrita com delicadeza e vitamina C pela cearense Socorro Acioli. Sua ficção, que mostra o relacionamento entre o avô Tamandaré e seu neto Porã, traz uma reflexão sobre o tempo, sobre os ciclos naturais e as transformações da vida.


Antes de começar a rabiscar, para entrar no clima da obra, fui xeretar um cajueiro frondoso que fica aqui pela vizinhança. Quando é tempo de caju, costuma ficar carregado e perfumado. Apanhei algumas folhas e a partir delas comecei a imaginar um entrelaçamento entre os reinos, embaralhando folhas, penas, asas e sementes. Porã adormece tranquilo aninhado na copa de um cajueiro. A primeira edição do livro, pela Secretaria da Educação do Estado do Ceará, foi ilustrada pelo Daniel Diaz, colega associado da SIB, para o Programa Alfabetização na Idade Certa PAIC.

julho 27, 2010

100 ANOS DE CLAUDE LÉVI-STRAUSS

O célebre etnógrafo belga faleceu no ano passado, após completar um século de vida. Utilizava um febril sistema de pesquisa, monasticamente e embriagado de mitos, vivendo entre os indígenas que estudava. Entre 1960 e 1970 compilou centenas de narrativas, que formaram a base para o seu entendimento da condição humana. Viveu quatro anos no Brasil e colaborou na fundação da Universidade de São Paulo.


No livro O CRU E O COZIDO, referência principal que adotei para fazer esta ilustração para revista BIONestlé, Lévi-Strauss se debruça sobre os mitos seminais dos povos indígenas que conheceu no Brasil. O subtítulo da obra – representações míticas da passagem da natureza à cultura – dimensiona a importância da alimentação quanto à distinção entre animais e seres humanos. Todos os mitos que reuniu nesse livro falam da descoberta ou do manejo do fogo por diversos povos indígenas. Ou seja, tratam do momento em que deixamos de comer cru, metáfora da natureza, e adotamos o fogo, ou cultura em última análise. Mais adiante, pela evolução de suas reflexões, chega a estabelecer inclusive uma classificação entre assado e cozido. Assado como sinônimo de sensual na culinária. Cozido como análogo ao que é nutritivo. O modo de preparo e a fartura dos alimentos também foram observados. Para ele, comida boa e farta seria um antídoto contra a fome e o medo. E a sofisticação nas receitas, portanto, sinalizaria uma maior ordem social. Por mais universal que desejasse ser, Lévi-Strauss não escapou de sua própria cultura. Ou da influência das sua perspectiva européia. Analisou outros povos a partir do que comiam, vestiam e agiam. Sem alcançar a imparcialidade plena, algo provavelmente impossível a toda e qualquer análise. Mesmo à científica, que sempre terá um ponto de partida e referência.

junho 02, 2010

ÓPERA BRASIL DE EMBOLADA

Convidado pela Pallas, eu e Eduardo Okuno cuidamos do projeto gráfico do poema multiforme do Rodrigo Bittencourt. Para criar as imagens, parti das suas tantas sugestões, associações, trocadilhos e referências. Encarei o texto como uma letra de canção. Dessa maneira, o papel da música coube às ilustrações. O livro será lançado no 12º Salão FNLIJ para Crianças e Jovens, no Rio de Janeiro.

Acima uma justa homenagem ao Chico Buarque, nosso Bob Dylan, nas palavras do autor. E também ao genial baiano Dorival Caymmi, no canto superior direito. O inesquecível Garrincha, trickster do visgo do improviso e da beleza improvável, mereceu uma página dupla.



Rodrigo Bittencourt é um Zé Pilintra das artes, quizomba ambulante, Exu rock’n’roll. Misto de poeta, agitador cultural, compositor e apresentador de tv, cabe tudo no balaio do homem, brasileiro brasileiríssimo que é. Depois de se embrenhar em todos esses redemoinhos de Saci, eis que agora ele saca esta opereta pop, este samba-exaltação do crioulo doido, esta ode graciosa ao “mulato inzoneiro” Brasil, com jeito de conto de Sherazade cabocla, Irmãos Grimm do cerrado, cordel mp3, conto da Carochinha delirante.

Escrito para crianças dos 4 aos 84, Ópera Brasil de Embolada é um passeio pelas belezas e mazelas do nosso caldeirão cultural fervente, onde, em se plantando, tudo sempre deu e dá. Elegia alegórica da miscigenação, acaba por ser, mesmo sem querer, informativo e educador, ao traçar um painel multicolorido (e caótico, como o nosso país afinal!) das artes tupiniquins de (quase) todos os tempos.

Aquarela do Brasil partida em pedaços, playmobil de casa grande & senzala, a escrita de Rodrigo tem lirismo e loucura, carnaval e decadência, ritual e sátira, folia e lucidez. Macunaíma que foi à escola, Malasartes beatnik, Policarpo Quaresma funkeiro, o cara mistura lé com cré e zás e trás com cousa & lousa e etc e tal. O resultado é uma leitura saborosa e leve, onde o Brasil reluz como nação iluminada do futuro, não por obra de políticos e tecnocratas, mas unicamente pelas mãos e milagres de seus artistas e de seu povo.

Evoé, saravá, salamaleicon!

Zeca Baleiro
São Luís, 7 de maio de 2010

maio 27, 2010

AKPALÔ: HISTÓRIA E MÚSICA


Há algum tempo não fazia ilustrações para obras didáticas. Aceitei o convite da Editora do Brasil para produzir as capas de cinco títulos para estudantes do 1º ao 5º ano. A coleção se chama AKPALÔ que, em nagô, é aquele que conta e guarda de memória as histórias de seu povo. Fiquei encarregado das obras de Aline Correa, da disciplina de História. A partir das especificações prévias, montei diferentes cenas e personagens bem brasileiros. Sempre crianças, reguladas pela idade dos leitores. Cada qual com seu respectivo instrumento musical.

abril 21, 2010

DA BOCA AO PAPEL


Os contos folclóricos, coletados em 2005 e reunidos nesta coletânea, mais do que o esforço de preservação das nossas tradições populares, são peças de raro brilho literário. Alguns encontram ressonância na Índia dos Vedas; outros, no Egito dos faraós. Há, ainda, os que trazem retalhos da mitologia greco-romana ou de narrativas da Bíblia. Portanto, é impossível pôr em dúvida sua “ancianidade veneranda”, como costumava dizer mestre Câmara Cascudo. Diversão para crianças, entretenimento para os adultos após o trabalho, o conto folclórico conserva, também, informações de hábitos, costumes, ritos e mitos aparentemente desaparecidos ou esquecidos.


Com um gravador em mãos, o escritor, editor e cordelista Marco Haurélio foi a campo para registrar parte do patrimônio imaterial brasileiro. Pois o saboroso resultado de sua pesquisa está registrado na caprichada edição da Paulus, que tive o prazer de ilustrar e cuidar do projeto gráfico. Motivado pelo desafio, desenvolvi também uma fonte especialmente para a edição.


Um variedade de contos de animais, de encantamento, religiosos, acumulativos, novelescos, humorísticos e de exemplo integram a coleânea. As notas e a classificação ficaram a cargo do Dr. Paulo Correia, do conceituado Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve, Portugal. Na ilustração de página dupla acima misturam-se personagens e passagens de contos maravilhosos. Na dupla abaixo, o mesmo expediente foi adotado para ilustrar os contos de exemplo.


Diz o autor: "A partir de uma recolha feita no sertão da Bahia, numa área que abrange desde o Médio São Francisco (Serra do Ramalho) até a Serra Geral (Brumado), foi organizada uma antologia de contos populares. O trabalho tornou possível a preservação das histórias de minha infância, contadas por D. Luzia (minha avó), como Belisfronte (já vertida para o cordel), Guime e Guimar, Maria Borralheira e A Mentirosa. Os contos de D. Luzia foram relembrados por Valdi Fernandes Farias (meu pai) e Isaulite Fernandes Farias (Tia Lili). Dentre os narradores estão D. Jesuína Pereira Magalhães, nascida em 1915, e D. Maria Rosa Fróes, de Brumado, que em 2005, época da recolha, contava 87 janeiros de sabedoria."

Dia 5 de maio, quarta-feira, a partir das 19h.
Local: Livraria Cortez
Rua Bartira, 317 - Perdizes
Tel.: (11) 3873-7111
São Paulo — SP

março 01, 2010


Para a ABECIP (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) produzimos, uma vez mais, a Identidade Visual do III Prêmio de Monografia em Crédito Imobiliário e Poupança. O concurso, aberto a profissionais e universitários, premiará as melhores monografias em dois temas: alternativas de funding e sistemas de amortização. A ilustração costura os dois temas, relacionados à questão do investimento imobiliário.

fevereiro 26, 2010

CADEIRAS PROIBIDAS


Nos anos 1970, Loyola escrevia crônicas para o Jornal Última Hora. Durante a ditadura, desconfiava-se de tudo e de todos. Sob tal tensão, seus textos viravam contos. Irônicos, cínicos, irreverentes, loucos, críticos, absurdos, profundos. Homens que viram barbantes. Mulheres que contam janelas. Gente que atravessa vidros. Um big-brother poético. O de Orwell, naturalmente. Achei interessante explorar o nonsense geométrico e as ilusões de ótica, à maneira do holandês Escher. Evitei assim explicitar a violência e a repressão. Somente insinuando o real. Na mesma levada dos contos.

fevereiro 11, 2010

HISTÓRIAS INDÍGENAS DE ASSUSTAR


Finalizando a trilogia de narrativas nativas, recontadas pelo escritor Daniel Munduruku , a Global em breve lançará o livro A CAVEIRA ROLANTE, A MULHER LESMA E OUTRAS HISTÓRIAS INDÍGENAS DE ASSUSTAR. Depois de ilustrar os dois primeiros títulos da premiada antologia, que trazem histórias de amor e de origem, tive agora a oportunidade de ilustrar personagens e enredos soturnos, patrimônio cultural dos povos Tukano, Tembé, Karajá, Macurap e Ajuru.


As histórias aqui recontadas pelo Daniel enfatizam o papel estratégico do medo na construção dos sentidos e na sobrevivência humana. Além da mistura de tinturas naturais com anilinas, que adoto com frequência, também utilizei elementos tridimensionais na confecção das ilustrações. Certas pirogravuras levam sementes, espinhos, palha de milho, folhas, raízes, xaxim de côco, madeira, penugem, casca de fruta ou até pipocas. Licença poética à parte, formas e grafismos foram referenciados pelas respectivas culturas originais. O fotógrafo Miguel Chaves fez a captura final das imagens.

fevereiro 02, 2010

ALMANAQUE BRASIL

Dia 2 de fevereiro é dia de festa no mar. Saudações à rainha das águas! A carranca pirogravada – fogo e água – estará na próxima capa da Almanaque Brasil.

A nova edição da revista de bordo da TAM trará a história da navegação brasileira como tema principal: os barcos indígenas, jangadas e canoas, a surpresa dos primeiros europeus ao conhecer as sofisticadas formas de navegação dos nativos, a influência tecnológica estrangeira, nossa tradição marítima e fluvial, as comunidades pesqueiras, gente do mar como João Cândido e Amir Klynk e, claro, as singulares carrancas do rio São Francisco.

Talvez tais figuras de proa fossem feitas, a princípio, com um objetivo comercial. Por volta de 1888, os ribeirinhos dependiam do transporte de mercadorias pelo rio. E os barqueiros buscavam chamar a atenção do povo para suas embarcações. Aos poucos, atribuiu-se às carrancas a propriedade de afugentar maus espíritos e caboclos d'água. Admirável expressão artística popular brasileira, as carrancas são horrendas e belas.

dezembro 09, 2009

2010: ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE


Acima uma pequena amostra multicolorida da nossa avifauna, face externa do cartão de boas festas feito para a Global Editora. O tema 2010: ANO INTERNACIONAL DA BIODIVERSIDADE, conforme declarado pela Assembléia Geral da ONU, foi o gancho. Em outubro teve início uma campanha de sensibilização para a salvaguarda da biodiversidade. Precisamos contrapor a perda da biodiversidade no mundo, mil vezes superior ao ritmo natural. Para não estragar a surpresa alheia, não postei a ilustração interna que fecha o conceito com uma mensagem de fim de ano com um paralelo entre a diversidade brasileira biológica e literária. Perdão aos especialistas sobre as eventuais incorreções técnicas. Esta é a versão não revisada.

UN Secretary General Welcome Message for the 2010 International Year of Biodiversity from CBD on Vimeo.

outubro 28, 2009

O KARAÍBA


Terá Cabral errado o caminho pela pouca experiência em navegação? Terá sido obra dos ventos ou do acaso? Ou terá sido caso pensado? Quem pode dizer? As consequências desse descobrimento, já sabemos. Conhecemos a versão oficial, fruto de uma única perspectiva. Mas e aqueles que aqui já viviam há quarenta ou cinquenta mil anos? Como viviam, pensavam, compreendiam, agiam, amavam, acreditavam e se relacionavam antes da chegada dos europeus? Teria alguém dado ouvidos ao Karaíba, o sábio visionário que prenunciou a tormenta nas suas terras, águas, costumes, que modificaria tudo o que existia?


Desvendar esse passado de nossas terras na era pré-cabralina é o mote deste novo livro de Daniel Munduruku, breve lançamento pelo selo Amarilys, da Manole. Nas palavras do próprio Karaíba: “é preciso conhecer o passado para entender o presente e sonhar um futuro”. Para isso, Daniel voltou no tempo, buscou memórias ancestrais e costumes. No desafio de reconstruir a visão, por vezes deturpada, do que se passou séculos atrás.


A obra não desfaz as certezas do homem branco que narrou o descobrimento. Revela, porém, que muito nos falta para que possamos vislumbrar o futuro do Brasil. Conhecer e compreender esse passado nunca plenamente contado é apenas o primeiro passo nessa direção.

setembro 30, 2009

UMA HISTÓRIA DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Mais uma imagem feita para a abertura do livro de Walter Fraga e Wlamyra R. de Albuquerque, novo lançamento da Editora Moderna. Os povos africanos que vieram para o Brasil trouxeram um imenso repertório de saberes, relacionados a técnicas de cultivo, religiosidade, música, culinária etc. No Brasil aconteceu uma notável interação dos povos de diferentes regiões da África. O contato com as tradições portuguesas e indígenas, também gerou uma cultura original, diversificada e muito rica: a cultura afro-brasileira.

setembro 04, 2009

BANQUETE PARA EDUCADORES


A Global editora pretende lançar este livro, de Daniel Munduruku, durante a Feira do Livro Indigena de Mato Grosso (FLIMT). A publicação é destinada aos educadores, sejam pais, mães ou professores. Trata das dificuldades atuais no desempenho desse papel, diante da crise de valores e referências na sociedade contemporânea, buscando soluções a partir do resgate da ancestralidade brasileira. E, sobretudo, motivado pela perspectiva orgânica, circular e holística tão característica das culturas nativas. Em parceria, Luciano Tasso e eu, produzimos todas ilustrações monocromáticas de capa e miolo. A obra será, a princípio, lançada durante a FLIMT, no centro históricos de Cuiabá, no dia 09 de outubro próximo. Por conta disso, estamos chacoalhando os nossos maracás!

agosto 12, 2009

O GÊNIO DO CRIME

Recentemente, a pedido da Global Editora, tive que (re)criar a ilustração de capa do maior sucesso, e marco da literatura jovem brasileira, do escritor João Carlos Marinho. Estranhei, pois já havia bolado capas para duas edições. A segunda, em particular, para celebrar o aniversário de 30 anos. Pois esse clássico seduz sempre novas gerações de leitores. E, uma vez mais, superou as expectativas. A ilustração quase abstrata acima, de figurinhas suspensas no ar, preparei para a capa da edição comemorativa de 40 anos do livro!

O CONDE FUTRESON

Em 1994 fui convidado pela Global Editora para assumir, no lugar do colega Roberto Barbosa, o posto de ilustrador oficial dos livros de João Carlos Marinho. Este livro – um aventura vampiresca da turma do Gordo – marca o início de uma longa parceria com o autor e também com a própria editora. De lá para cá, ilustrei a maior parte das suas obras. Sempre sob um registro gráfico muito particular, consensual desde a primeira encomenda. Os desenhos de capa e miolo originais foram feitos à bico de pena. Quinze anos depois, eis aqui a nova ilustração para a capa de mais uma edição deste clássico do João. Para quem se sentir inspirado pela obra, recomendo uma pousada na Transilvânia, administrada pelo meu amigo Fernando Klabin, especialista em viagens temáticas e hospitalidade moldava.

julho 27, 2009

HISTÓRIAS DA ÍNDIA

Um marajá, príncipe na Índia antiga, posa a frente do barbeiro. À direita, uma princesa e um macaco que acaba de dar um sumiço em seu pretendente: um faquir trapaceiro. Eunice de Souza nasceu em Pune, Índia. Doutoranda pela Universidade de Bombaim, mestre em Literatura Inglesa pela Universidade de Marquette (E.U.A.), ex-professora do St. Xavier's College. Poeta, romancista e autora de diversas obras para crianças. Neste livro, pela Edições SM, a autora reconta dez histórias. Divertidas, fantásticas, sagazes, fabulosas, foram recolhidas de várias regiões da Índia e do Panchatantra, a mais antiga coleção de histórias conhecidas. Cada porção de seu país tem suas singularidades, conforme a cultura e tradição local. Antes de começar a pensar e rabiscar, reuni informações sobre arte e cultura indianas. Agradeço, em particular, a colaboração imprescindível de três queridos amigos.

Uma ilustração feita sob medida para a primeira página do livro, mais conhecida como rosto ou frontispício. Ajna, ou o sexto chakra, fica bem entre as sobrancelhas e está ligado à intuição e à percepção sutil. Quando bem desenvolvido, indica um sensitivo de alto grau.

O deus Shankara, mais conhecido como Shiva, é ludibriado por um garoto cego e pobre da classe dos mercadores. A imagem acima foi feita para uma narrativa do estado de Gujarate, onde fica o templo de Somnath, dedicado ao deus Soma, que corresponde à Lua.

Uma simulação de um painel de madeira tradicional dos artesãos nagas, povo do atual território montanhoso de Nagaland, nordeste da Índia. Para ilustrar o dia em que o Sol se recusou a brilhar. Os nagas eram conhecidos como guerreiros habilidosos, dotados de poderes mágicos. Muitas vezes associados aos míticos homens-serpentes que teriam povoado o mundo subterrâneo, no princípio dos tempos.

julho 06, 2009

UMA HISTÓRIA DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Escrito por Walter Fraga e Wlamyra R. de Albuquerque, breve lançamento pela Editora Moderna, o livro destaca o ríquissimo legado da cultura africana no Brasil. Parte do coração da África, mãe de todos os povos, navega pelos rios rumo ao deserto, percorre o Saara trazendo muitas informações e riquezas para enfim chegar à costa, de onde partiram tantos africanos pelo tráfico levados ao Brasil.

De cunho informativo, a obra não poderia prescindir de iconografia. Pude, porém, contornar esse objetivo mais documental e recriar poeticamente, pelo viés dos africanos e de seus descendentes, vários aspectos que compõem a nossa formação cultural. O livro não apenas discorre sobre as contribuições artística, religiosa, culinária, linguística, literária, jornalística, medicinal, filosófica, esportiva e musical. Ressalta também o quanto a resistência negra ajudou a fortalecer a idéia de liberdade no Brasil. E me ofereceu uma outra oportunidade de retratar Zumbi dos Palmares: um símbolo de liderança, identidade, nexo e resistência (imagem logo abaixo).

A cultura de um povo compreende seu conjunto de manifestações coletivas, mas vai além disso. Diz respeito à maneira como padrões de comportamento são assimilados e determinam o modo de ser e agir em sociedade, de se vestir, falar, de educar os filhos e lidar com o desconhecido, com a morte e com a busca de soluções e sentidos na vida. Publicações como esta são fundamentais para ampliar a reflexão e plena percepção da cultura e identidade brasileiras.

Também ilustrei mais um tumbeiro, abarrotado de malungos (companheiros de viagem), reduzidos a meras silhuetas esquemáticas, com frieza numérica. A ilustração abaixo mostra uma animada roda de samba, uma homenagem à sensibilidade e à pintura do mestre Heitor dos Prazeres.

maio 20, 2009

ERA UMA VEZ...HISTÓRIAS QUE CURAM

Pesquisas e exames de neuroimagem têm revelado os efeitos cognitivos e psíquicos que as narrativas são capazes de gerar, influenciando a capacidade humana de crer e tomar decisões. Pesquisadores de diversas áreas têm encontrado indícios de que nosso cérebro parece ser fisicamente estruturado para gostar de histórias. O fascínio da narração, portanto, é o mote dessas ilustrações que estarão na próxima edição da revista Mente e Cérebro. Há quem note algo de familiar no retrato do casal. Já a leitora abaixo se rende à prosa pirográfica e irresistível do argentino Julio Cortázar.

maio 02, 2009

PIGMEUS: OS PROTETORES DA FLORESTA

Lançamento da DCL Editora, 20/06 às 12h00 no 11º Salão FNLIJ, mais um livro de Rogério Andrade Barbosa. O projeto exigiu uma pesquisa sobre a iconografia desses povos africanos, genericamente conhecidos por Pigmeus. Ou gente pequena, como eles chamam a si mesmos. O povo da floresta tropical de Ituri, os Efe ou Pigmeus Mbuti, estão entre os mais antigos da África. Essa floresta, rica em recursos naturais, fica numa região montanhosa no nordeste da República Democrática do Congo.

A mais conhecida expressão artística dos Pigmeus é sua música polifônica. De uma certa maneira, traduz sua maneira de viver. A partir da arte tradicional de suas roupas (mulumbas), pintadas com bonitos desenhos abstratos, recriei os padrões estilizados e a geometria colorida. Também fiz registros de pintura corporal e combinei uma série recursos para traçar os desenhos, fazer as pinturas e colagens com elementos naturais, como argila, cal, palha, folhas e sementes. Houve também interferência digital nas ilustrações.

Os pigmeus se integram à floresta, com uma notável intimidade. Vivem, falam, dançam, cantam e encantam sob uma perspectiva bioética. Frágil equilíbrio diante de culturas estrangeiras e invasoras. Da floresta de Ituri a madeira tropical é colhida, legal e ilegalmente, em larga escala. Os minerais como o ouro e o coltan, utilizado em telefones celulares, são bastante explorados. No começo da década de 90, as companhias madeireiras comerciais malaias e européias invadiram a região, trazendo malária, prejudicando a caça e introduzindo o dinheiro, o tabaco e a maconha. Os Efe ficaram doentes, famintos e desalentados. Durante a última década, sua forma de vida tradicional tem sido abalada pela forte atividade florestal comercial. Desde a metade de 2006, a reconstrução de estradas têm oferecido às madeireiras mais acesso à floresta, comprometendo o habitat natural do Povo Pigmeu Efe. As guerras e o círculo econômico asfixia os Pigmeus: a floresta está desaparecendo. Disse o velho e sábio Efe Moke: "Vocês entenderão porque somos conhecidos como o povo da floresta... Quando ela morrer, morreremos com ela".