julho 06, 2009

UMA HISTÓRIA DA CULTURA AFRO-BRASILEIRA

Escrito por Walter Fraga e Wlamyra R. de Albuquerque, breve lançamento pela Editora Moderna, o livro destaca o ríquissimo legado da cultura africana no Brasil. Parte do coração da África, mãe de todos os povos, navega pelos rios rumo ao deserto, percorre o Saara trazendo muitas informações e riquezas para enfim chegar à costa, de onde partiram tantos africanos pelo tráfico levados ao Brasil.

De cunho informativo, a obra não poderia prescindir de iconografia. Pude, porém, contornar esse objetivo mais documental e recriar poeticamente, pelo viés dos africanos e de seus descendentes, vários aspectos que compõem a nossa formação cultural. O livro não apenas discorre sobre as contribuições artística, religiosa, culinária, linguística, literária, jornalística, medicinal, filosófica, esportiva e musical. Ressalta também o quanto a resistência negra ajudou a fortalecer a idéia de liberdade no Brasil. E me ofereceu uma outra oportunidade de retratar Zumbi dos Palmares: um símbolo de liderança, identidade, nexo e resistência (imagem logo abaixo).

A cultura de um povo compreende seu conjunto de manifestações coletivas, mas vai além disso. Diz respeito à maneira como padrões de comportamento são assimilados e determinam o modo de ser e agir em sociedade, de se vestir, falar, de educar os filhos e lidar com o desconhecido, com a morte e com a busca de soluções e sentidos na vida. Publicações como esta são fundamentais para ampliar a reflexão e plena percepção da cultura e identidade brasileiras.

Também ilustrei mais um tumbeiro, abarrotado de malungos (companheiros de viagem), reduzidos a meras silhuetas esquemáticas, com frieza numérica. A ilustração abaixo mostra uma animada roda de samba, uma homenagem à sensibilidade e à pintura do mestre Heitor dos Prazeres.

maio 20, 2009

ERA UMA VEZ...HISTÓRIAS QUE CURAM

Pesquisas e exames de neuroimagem têm revelado os efeitos cognitivos e psíquicos que as narrativas são capazes de gerar, influenciando a capacidade humana de crer e tomar decisões. Pesquisadores de diversas áreas têm encontrado indícios de que nosso cérebro parece ser fisicamente estruturado para gostar de histórias. O fascínio da narração, portanto, é o mote dessas ilustrações que estarão na próxima edição da revista Mente e Cérebro. Há quem note algo de familiar no retrato do casal. Já a leitora abaixo se rende à prosa pirográfica e irresistível do argentino Julio Cortázar.

maio 02, 2009

PIGMEUS: OS PROTETORES DA FLORESTA

Lançamento da DCL Editora, 20/06 às 12h00 no 11º Salão FNLIJ, mais um livro de Rogério Andrade Barbosa. O projeto exigiu uma pesquisa sobre a iconografia desses povos africanos, genericamente conhecidos por Pigmeus. Ou gente pequena, como eles chamam a si mesmos. O povo da floresta tropical de Ituri, os Efe ou Pigmeus Mbuti, estão entre os mais antigos da África. Essa floresta, rica em recursos naturais, fica numa região montanhosa no nordeste da República Democrática do Congo.

A mais conhecida expressão artística dos Pigmeus é sua música polifônica. De uma certa maneira, traduz sua maneira de viver. A partir da arte tradicional de suas roupas (mulumbas), pintadas com bonitos desenhos abstratos, recriei os padrões estilizados e a geometria colorida. Também fiz registros de pintura corporal e combinei uma série recursos para traçar os desenhos, fazer as pinturas e colagens com elementos naturais, como argila, cal, palha, folhas e sementes. Houve também interferência digital nas ilustrações.

Os pigmeus se integram à floresta, com uma notável intimidade. Vivem, falam, dançam, cantam e encantam sob uma perspectiva bioética. Frágil equilíbrio diante de culturas estrangeiras e invasoras. Da floresta de Ituri a madeira tropical é colhida, legal e ilegalmente, em larga escala. Os minerais como o ouro e o coltan, utilizado em telefones celulares, são bastante explorados. No começo da década de 90, as companhias madeireiras comerciais malaias e européias invadiram a região, trazendo malária, prejudicando a caça e introduzindo o dinheiro, o tabaco e a maconha. Os Efe ficaram doentes, famintos e desalentados. Durante a última década, sua forma de vida tradicional tem sido abalada pela forte atividade florestal comercial. Desde a metade de 2006, a reconstrução de estradas têm oferecido às madeireiras mais acesso à floresta, comprometendo o habitat natural do Povo Pigmeu Efe. As guerras e o círculo econômico asfixia os Pigmeus: a floresta está desaparecendo. Disse o velho e sábio Efe Moke: "Vocês entenderão porque somos conhecidos como o povo da floresta... Quando ela morrer, morreremos com ela".

abril 22, 2009

GENTE, BICHO, PLANTA: esse mundo me espanta

Mais uma, para o livro da Ana Maria Machado. O tema aqui é o coiote, quase extinto no meio-oeste norte-americano, porque os criadores de ovelhas jamais aceitavam perder. Decidiram acabar com os coiotes. Os coelhos, as marmotas e os ratos agradeceram. Comeram folha, flor, raiz e tudo mais o que havia. Sem predador natural, proliferaram-se e acabaram virando uma praga. Comeram o capim. Arrasaram os pastos. E os rebanhos minguaram.

abril 06, 2009

COMIDA DE ENCHER OS OLHOS

Pintor, escultor, paisagista, tapeceiro, ceramista, desenhista, designer, cenógrafo, figurinista e barítono, Burle Marx também botava o pé na cozinha. Festeiro, preparava pratos inventivos para receber amigos como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Pablo Neruda, Le Corbusier ou a ilustradora botânica Margareth Mee. Nos famosos jantares em sua casa Burle cantava, tocava piano, decorava a mesa com orquídeas, estendia toalhas de mesa por ele pintadas, servia pitangomangolotango (vinho tinto com pitanga) e cuidava da apresentação dos pratos. Retrato feito para a revista BIONESTLÉ.

março 19, 2009

GENTE, BICHO, PLANTA: esse mundo me espanta

Ilustrações para o livro da Ana Maria Machado, que será relançado pela Global Editora. A capa mostra três desenhos que lembram aquelas tradicionais gravuras científicas. Cada figura, legendada e identificada com jargões arquitetônicos (fachada, elevação e planta), em parte traduzem o título do livro. Mas acrescentei um toque de humor e poesia ao comparar uma galinha, um homem e uma folha.



Neste livro, a escritora desenvolveu três narrativas enxutas, de inspiração científica ou baseadas em episódios reais, que acontecem em cenários diferentes. O tema comum é o desequíbrio ambiental causado pela acão humana. Na primeira, o naturalista Thomas Huxley desvenda um mistério à la Sherlock Holmes. A planície noturna do oeste norte-americano acima publicada é o cenário da segunda história, que trata de coiotes, ovelhas e de ganância desmedida.

A silhueta natural, alusão imediata ao mestre Arcimboldo, é umas das imagens feitas para a terceira história. Nela a autora brinca com a formação do universo, dos planetas, da origem da vida e da sua maior ameaça na Terra, por nós representada. Foi um desafio à parte ilustrá-la, pelos elementos quase abstratos dos primórdios da formação do nosso planeta. Usei grafite, tinta de parede, canetas velhas, metal enferrujado e arremates digitais. Do lápis ao computador, ferramentas também são parte de nosso rastro.

janeiro 09, 2009

HISTÓRIAS DE TERRA

O livro acima – escrito pela Marcia Kupstas e editado pela Salesiana – reúne uma história do Candomblé de matriz Iorubá, um trecho do épico hindu Ramayana e narrativas ancestrais contadas por uma avó japonesa. Misturando carvão, grafite, terra, areia, argila, pedra, madeira e mesmo mofo, fiz as ilustrações. No miolo procurei um registro mais arenoso, que fosse perceptível mesmo impresso apenas em preto. Abaixo estão reunidos os orixás para a festa do supremo Olorum-Olodumare. No centro, sob a terra, sua discreta filha Onilé.

janeiro 08, 2009

MAIS UMA PORÇÃO DE ARTE

As duas vinhetas acima também foram feitas para aquela matéria da revista BIONESTLÉ, sobre obras de arte e comida. Na receita botei uma pitada de Warhol, Miralda, Braque, Dieter Roth, Jean François de Troye, Chardin e outros. O Bread-Man é um alter ego do artista japonês Tatsumi Orimoto. Em Paris tem muitos outros desses aí!

janeiro 02, 2009

O BRASIL DE TODOS NÓS - II

A sombra e os pés são do Gorjala, parente do grego Polifemo. Talvez tenha sido introduzido pelos primeiros navegantes portugueses. Ou atravessou o Atlântico a pé, como preferem alguns. Esse monstro de um olho só adora carne humana, em particular, dos caçadores que maltratam a flora e a fauna. Do jeito que andam as coisas pela Amazônia, o cardápio para esse primo do Curupira está garantido. A pirogravura acompanha a narrativa recontada pela escritora Georgina Martins, parte de O BRASIL DE TODOS NÓS, da Editora DCL.

dezembro 15, 2008

COMO SE ESPEVITA...


...ESSA BRUXA BENEDITA, de Lenice Gomes, Editora DCL. Bruxarada enfeitiçada pela Benedita, que converte a noite em dia.

"SAPO-BOI
SAPO-TANOEIRO
SAPOS-PIPAS
SAPO-CURURU
DA BEIRA DO RIO..."


dezembro 09, 2008

Ilustrei lenga-lengas e trava-línguas da personagem criada pela Lenice Gomes, para o poema editado pela DCL. É uma aprendiz de feiticeira que, com cabelos de fogo, confronta as trevas, domínio da bruxa Rainha. Usei um conta-gotas de nanquim para os traços, que foram aplicados sobre diversas superfícies de madeira e de alvenaria, bastante manchadas. O plano era justamente acompanhar o poema, de forma mágica e fluída, como quem assobia uma música. O corvo acima e os sapos abaixo foram, por exemplo, desenhados assim.

novembro 10, 2008

UMA PORÇÃO DE ARTE

Abertura de uma matéria (revista BIONESTLÉ), que trata da relação entre arte e comida, é uma composição de fragmentos de obras de Caravaggio, Acimboldo, Brueghel, Léger, Lichtenstein, Warhol, Picasso, Gaba e Dorothée Selz. Montei uma natureza-morta no primeiro plano, que mistura o cubismo do início do século XX, a pop art e o chiaroscuro das frutas de Caravaggio. No segundo plano está Vertumno, de Acimboldo, com uma língua de Antoni Miralda. No plano seguinte, uma personagem de Caravaggio, detalhes de Jean-Baptiste-Siméon Chardin e, acima ao fundo, o banquete nupcial de Pieter Brueghel.

outubro 31, 2008

O BRASIL DE TODOS NÓS - I

A imagem acima ilustra o texto BICHO-LOBO, de André Neves. Faz parte de uma compilação de narrativas populares brasileiras, recontadas por diferentes escritores e ilustradores. Um projeto editorial da Cargill, a ser lançado pela DCL, sob coordenação do Estúdio Sabiá. Dolores, a filha do coronel, observa a noite pela janela. Ela é a menina dos olhos de Laurindo. Sétimo filho rejeitado pela família, pálido, franzino e doente.

MEU TATARAVÔ ERA AFRICANO

Este mapa – que faz parte do livro de Georgina Martins e Teresa Silva Telles, lançado pela Editora DCL – mostra as principais rotas dos tumbeiros abarrotados de escravos que vinham da África para o Brasil. O livro trata do passado doloroso vivido pelos escravos negros no período da Colonização no Brasil. O projeto gráfico mistura material iconográfico com pirogravuras colorizadas com anilinas, café, óleo de nogueira, ferrugem e outros materiais.

setembro 17, 2008

CONTOS E LENDAS DA MITOLOGIA CELTA


Tenho ilustrado narrativas míticas brasileiras, pelas quais tenho um enorme prazer, identificação e apreço. Aqui mergulhei no caldeirão da mitologia celta, menos conhecida do que a grega ou a romana. Fiz várias composições com fragmentos iconográficos celtas para ilustrar o miolo. Não sobraram muitos. O cristianismo esforçou-se para eliminar seus vestígios. Algumas lendas tidas como pagãs sobreviveram graças às transcrições dos monges da Irlanda e do País de Gales no séc. VIII, aos historiadores da Antiguidade e às descobertas arqueológicas. De uma maneira ou de outra, deuses e heróis celtas reverberam no substrato cultural do Velho Mundo, para o qual me voltei ao fazer esse trabalho diferente para a Martins Fontes.

agosto 28, 2008

QUINTO


Em seu novo disco, QUINTO – o número 5 de sua discografia – lançado pelo selo baiano Páginas ao Mar e distribuição da Tratore, o músico paulista Marcelo Quintanilha – mais conhecido como QUINTA – traz rock’n’roll, contestação e atitude sem fugir de suas raízes populares brasileiras. Arranjos ásperos e letras inteligentes. Um repertório autoral, com exceção de O Tempo Não Pára (Cazuza e Arnaldo Brandão) e de Porta-Estandarte (Geraldo Vandré e Fernando Luna). Suas composições tratam de temas como a sociedade moderna, o meio ambiente, o ser humano e o tempo. Assinamos, Eduardo Okuno e eu, o projeto gráfico. Fiz pirogravuras para ilustrar a atmosfera mais tensa desse seu novo trabalho. Para falar de amor, em contrapartida, Quinta escolheu a canção Quando Você Chegar, escrita para a mulher, Vania Abreu.

agosto 13, 2008

ESTAMPA LATINAMERICANA


Cartaz selecionado para a mostra e catálogo do III Encontro Latino-Americano de Design, pelo concurso de cartazes AMÉRICA SE EXPRESSA DESENHANDO. Uma iniciativa sediada pela Universidade de Palermo, em Buenos Aires e coordenada pelo Fórum de Escolas de Design, que reúne mais de uma centena de representantes acadêmicos de instituições educativas de design na América Latina, cujo objetivo central é contribuir para a união, desenvolvimento e fortalecimento acadêmico-profissional das instituições associadas. E também refletir, informar, comunicar e produzir propostas e projetos que expandam as bases e perspectivas do design enquanto profissão e disciplina em nosso continente.

agosto 07, 2008

PEQUENO CATÁLOGO DE AUTORES INDÍGENAS

Montei o cocar acima para a capa do primeiro catálogo literário de obras de autores indígenas editado no Brasil. Sinal dos novos tempos. De preocupações étnicas, busca de sentidos e de recuperação da alma ancestral brasileira. Fomos convidados pelo escritor Daniel Munduruku, querido parceiro e Diretor-Presidente do Instituto Indígena Brasileiro para Propriedade Intelectual para fazer o projeto gráfico das duas versões dessa publicação, em português e inglês. Esta é uma contribuição do Núcleo de Escritores e Artistas Indígenas do Inbrapi para os educadores brasileiros e estrangeiros, que agora podem encontrar uma parcela expressiva da produção indígena nacional num único volume. Para saber mais, confira o site do Daniel Munduruku.

julho 22, 2008

NAVIOS NEGREIROS (Edições SM)

Num único volume a versão integral de um dos mais importantes poemas da literatura brasileira, o NAVIO NEGREIRO, de Castro Alves, e o poema homônimo de Heinrich Heine, escritor romântico alemão influenciado pelo iluminismo francês. Publicado pela primeira vez em 1854, tem caráter épico-narrativo enquanto que o de Castro Alves, surgido quinze anos depois, em 1869, é essencialmente lírico, revelando mais sobre o narrador que sobre o evento. No poema de Heine, em contrapartida, o mundo objetivo se impõe sobre o narrador.



A despeito da importância do tráfico de escravos como tema comum – e do trabalho interdisciplinar com a área de história – a reunião desses autores, inédita no país, enseja uma análise comparativa entre diferentes apropriações de um fato histórico cujas conseqüências ainda são visíveis no Brasil contemporâneo.









De um lado, temos os movimentos subjetivos de um narrador misturado à natureza – unidade desfeita pelo encontro do navio, que dá origem a interpelações angustiadas, de forte teor oratório. Já no poema de Heine, a natureza está mancomunada desde o início com a corrupção humana. De um lado, o apelo moral e humanitário do baiano condoreiro, do outro, o humor negro, a sátira dolorosa de um alemão nos alvores do realismo.

julho 07, 2008

CABEÇAS DE SEGUNDA-FEIRA


Segunda-feira foi o dia escolhido para postar este gouache, capa e verso de mais um romance de Ignácio de Loyola Brandão. Trata-se de uma releitura da clássica pintura a óleo sobre madeira – Jardim das Delícias Terrestres – pintado por Hieronymus Bosch entre 1503 e 1504. Demorei meses a fio para converter o intrincado painel num Paraíso pop contemporâneo. Percebi que essa ilustração se encaixaria bem com o conteúdo do livro e com a expectativa do Loyola para a capa. O mesmo hedonismo, luxúria, distorções morais e tentações já constavam da pintura original. Para os voyeurs de plantão sugiro clicar na imagem para conferir os detalhes.